Galípolo e a fábula do escorpião com o sapo barbudo

Lula e os petistas acreditavam que Galípolo abaixaria de patamar a taxa básica de juros (Selic). Ele não fez nada disso: elevou para os 15% ao ano preestabelecidos por Roberto Campos Netto.

Por Tales Faria

A peçonha não está no sujeito, mas no ambiente que o cerca. O ambiente econômico que levou Galípolo a Lula tem uma história mais ligada a economistas heterodoxos do que os ortodoxos que, para os petistas, são um verdadeiro veneno escorpiônico.

A fábula "O escorpião e o sapo" costuma ser atribuída a Esopo, mas não aparece em nenhuma de suas obras. Há várias versões para a sua origem.

Poderia ser inspirada nas fábulas do Pañcatantra. São cinco Tratados que compõem uma famosa coleção de narrativas da Índia antiga, amplamente difundida para todo o mundo por meio de traduções ou adaptações.

Diz-se também que se origina de uma fábula russa moderna, baseada na antiga fábula persa "O Escorpião e a Tartaruga"; e que vem do Anvaar Soheili, uma coletânea de fábulas do estudioso persa Husayn Kashifi, do século XV.

Na fábula persa, a tartaruga não morre. É protegida pelo casco. Mas na versão russa, mais sombria, "O Escorpião e o Sapo", conta-se que o aracnídeo peçonhento pediu ao sapo que o ajudasse a atravessar o rio, carregando-o nas costas.

O sapo disse-lhe que não o faria, porque poderia ser picado. O escorpião, no entanto, argumentou que se picasse o sapo no meio do rio, ambos afundariam e morreriam afogados. O sapo concordou. Afinal, não é da natureza de nenhum animal se suicidar.

Mas, no meio do caminho, o escorpião acaba por ferroar o sapo, que perguntou por que ele fizera aquilo, se ambos morrerão. O escorpião respondeu: "Porque esta é a minha natureza."

Não é da natureza dos escorpiões se suicidar, mas é da sua natureza ferroar outros animais. O sapo apostou naquilo que o aproximava do escorpião, mas perdeu. Viu-se atacado pelo lado mortal da natureza do escorpião. Essa é a moral da história. Mas o que isto tem a ver com Gabriel Galípolo?

Não, ele não é o escorpião. A peçonha não está no sujeito, mas no ambiente que o cerca.

O ambiente econômico que levou Galípolo a Lula tem uma história mais ligada a economistas heterodoxos do que os ortodoxos que, para os petistas, são um verdadeiro veneno escorpiônico.

Um dos professores de Galípolo, de quem mais se aproximou na PUC de São Paulo, foi Luiz Gonzaga Belluzzo, que o apadrinhou junto ao presidente Lula. E Lula - este, sim, o sapo barbudo da história - se encantou com Galípolo, a quem chamou para a equipe de transição e depois empossou como secretário-executivo do Ministério da Fazenda.

Antes, Galípolo havia montado uma consultoria muito bem-sucedida e trabalhado no Banco Fator, por onde teve uma exitosa passagem: assumiu a diretoria de negócios em 2016 e se tornou presidente entre 2017 e 2021.

Essa passagem - em que aparentemente teria resistido à face peçonhenta do mercado financeiro - é que possivelmente fez Lula e o ministro Fernando Haddad acreditarem que Galípolo era a figura ideal para assumir no Banco Central.

O menino de ouro de Belluzzo poderia funcionar como o casco da tartaruga que a protegeu, quando picada, do veneno do escorpião do mercado.

Mas, no comando da autoridade monetária do país, Galípolo é que foi inoculado pelo escorpião. Dessa vez não resistiu e mudou sua própria natureza: a prioridade como presidente do Banco Central passou a ser a manutenção das premissas do mercado, e não as do governo Lula.

O sapo barbudo achou que poderia atravessar o rio carregando Galípolo nas costas. Agora começa a achar que o antigo aliado mudou de natureza.

Na sua passagem anterior pelo Palácio do Planalto, Lula conseguiu fazer do banqueiro Henrique Meirelles o casco de tartaruga a proteger o sapo barbudo. Por algum motivo, parece que Galípolo não está prestando como escudo.

Lula e os petistas acreditavam que Galípolo abaixaria de patamar a taxa básica de juros (Selic). Ele não fez nada disso: elevou para os 15% ao ano preestabelecidos por Roberto Campos Netto. E não parece disposto a mudar.