João Fonseca justifica o hype em Paris

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Aos 19 anos, o brasileiro João Fonseca vence Djokovic após estar perdendo por dois sets a zero em uma partida que entra para a história do tênis brasileiro

A icônica quadra Philippe-Chatrier, em Paris, estava lotada. No placar, 6x5 para João Fonseca no quinto e decisivo set contra o maior vencedor da história do tênis, Novak Djokovic. Break point para o sérvio — jogador reconhecido como um dos mais fortes mentalmente que já pisaram em uma quadra. A sequência dos fatos é impressionante: três aces seguidos de Fonseca, limpando as linhas sujas de saibro de Roland Garros, um dos quatro Grand Slams do circuito da ATP.

Aos 19 anos, o brasileiro vencia Djokovic após estar perdendo por dois sets a zero em uma partida que entra para a história do tênis brasileiro. Na mesma quadra em que Gustavo Kuerten, o Guga, escreveu os mais belos capítulos da história da modalidade no Brasil com seus três títulos de Roland Garros e eternizou a imagem do coração desenhado com a raquete no saibro francês, João fez bater mais forte o coração de milhões de brasileiros.

Em quase cinco horas de jogo, o carioca saiu atrás no placar, mas reagiu e venceu com parciais de 4/6, 4/6, 6/3, 7/5 e 7/5. Foi apenas a segunda vez em toda a trajetória do sérvio em Grand Slams que ele perdeu uma partida após abrir 2 sets a 0.

As estatísticas representam apenas um retrato frio do que foi o confronto. Na tarde quente de Paris, Fonseca travou uma batalha física, técnica e mental com um de seus ídolos, considerado por muitos o maior jogador de todos os tempos.

Os números mostram com clareza quem era seu oponente: recordista com 24 títulos de Grand Slam, campeão olímpico, dono de 40 conquistas em torneios Masters 1000, mais de 100 títulos da ATP e detentor do recorde absoluto de 428 semanas como número 1 do mundo. Ou seja, uma lenda.

Diante desse adversário, que representa o nível mais alto do esporte, e com toda a atmosfera do estádio, o jovem tenista brasileiro mostrou estar pronto.

Foi frio em momentos cruciais, corajoso nos pontos importantes e, a partir do terceiro set, mais regular para, enfim, escalar o Monte Everest do tênis e buscar a histórica remontada. Esta talvez tenha sido a última partida da carreira de Djokovic em Roland Garros. Uma despedida à sua altura.

Aos 39 anos, a aposentadoria se aproxima e os jovens, como Jannik Sinner e Carlos Alcaraz, já pediram passagem. Mas ainda é impressionante presenciar o que Novak Djokovic é capaz de fazer. A leitura de jogo, a técnica, a força física e mental e a frieza camuflada nas explosões de temperamento em quadra o colocam no topo do esporte. Um pedestal que divide apenas com Rafael Nadal e Roger Federer.

Fora da quadra, a elegância e o reconhecimento de um verdadeiro desportista. Não usou o visível desgaste físico como desculpa. Apenas exaltou o nível de tênis apresentado por João, destacou a qualidade técnica do brasileiro, especialmente a potência dos golpes, e a capacidade de manter o nível mesmo sob enorme pressão em uma quadra central.

Para ele, João deve sentir orgulho de sua atuação. Na verdade, o Brasil e todo o mundo do tênis devem se orgulhar do que Fonseca deixou em quadra. Em sua fala após a derrota, Djokovic tocou em um ponto importante. O sérvio afirmou que a atuação do brasileiro justificou toda a expectativa criada em torno dele nos últimos meses e disse: “Hoje vimos o motivo de todo o hype ao redor dele”.

João Fonseca tem sido, de certa forma, desmerecido por parte da crítica brasileira e internacional e até mesmo por alguns adversários, em razão de toda a atenção que recebe da mídia especializada, do alto engajamento nas redes sociais e do furor que sua presença provoca nos torneios.

O fenômeno João Fonseca tomou de assalto o circuito. A organização dos torneios tem se preocupado em escolher quadras com maior capacidade para acolher o público que deseja vê-lo jogar e a torcida brasileira, de fato, invadiu os estádios.
Algumas vezes, se excede no comportamento e rasga a etiqueta do esporte, chegando a atrapalhar o andamento da partida e até mesmo o próprio Fonseca.

Mas nesta sexta-feira, a torcida criou uma atmosfera surreal sem ser desrespeitosa, empurrou João Fonseca e o manteve vivo nos momentos difíceis. O brasileiro sentiu o público ao seu lado e passou a acreditar mais na possibilidade da vitória.

Faltava um grande resultado em um torneio Major para enterrar essa narrativa e justificar o hype. Não falta mais. João Fonseca está inserido entre os melhores jogadores de tênis do mundo. Ainda se encontra um degrau abaixo da elite formada pelos cinco melhores do ranking, mas a cada passo, a cada torneio, é possível perceber essa distância diminuir.

O caminho ainda é longo, mas a rota está bem traçada. No fim de 2024, ao vencer o Next Gen ATP Finals, torneio que reúne os principais jovens talentos da modalidade, Fonseca entrou definitivamente nos holofotes. Desde então, sua postura não mudou. Seguiu firme na busca pelo amadurecimento, manteve sua equipe técnica e respeitou o planejamento traçado para sua evolução.

Venceu dois torneios ATP 500, alcançou o Top 30 e conviveu com altos e baixos, como qualquer jovem tenista. Sentiu a pressão em alguns momentos, como no Rio Open de 2025, quando caiu na primeira rodada. Teve problemas físicos, perdeu para adversários considerados mais fracos e seguiu em frente. Até chegar ao momento de vencer Novak Djokovic e alcançar a inédita quarta rodada de um Grand Slam.

Com a derrota de Sinner, número um do mundo, a ausência de Alcaraz por lesão e a eliminação de Djokovic, a porta finalmente está aberta e teremos um inédito campeão de Major. Pode ser a vez de João, ou de outro jovem talento como Jakub Mensik ou Rafael Jodar. Pode ser a vez de outro jogador mais experiente, como o agora favorito Alexander Zverev, ou Casper Ruud. Só saberemos no dia 7 de junho.

O que podemos ter certeza é que, após essa virada épica, João Fonseca está pronto para voar mais alto.

Na entrevista após a partida, ele mostrou mais uma vez seu amadurecimento precoce e, ao mesmo tempo, transmitiu uma mensagem típica de um jovem de 19 anos curtindo o momento, mas cheio de ambições.

Em um misto de incredulidade, emoção e respeito pelo adversário, Fonseca afirmou que enfrentar Djokovic já era um sonho e que dividir aquele momento com um dos maiores nomes da história do esporte era algo especial. E completou: “Sonhar não custa nada”.

Que João siga sonhando alto. E fazendo o Brasil sonhar.