Oscar Schmidt: seu legado seguirá pontuando gerações
Ídolo do basquete morreu aos 68 anos
Por Sérgio Nery*
O esporte mundial perdeu um ícone com a morte de Oscar Schmidt nesta “cesta-feira”, 17 de abril. O basquete ganhou uma lenda. Já o Brasil se despede de um ídolo que honrou como poucos as cores do país. Um desportista único, que colocou sua nação à frente de interesses individuais, inclusive financeiros.
Em 1984, ele optou por seguir defendendo a seleção brasileira em vez de jogar na NBA, ao lado de nomes como Michael Jordan, Magic Johnson e seu ídolo Larry Bird, todos contemporâneos de Oscar. Na época, atletas da liga norte-americana não podiam disputar competições da FIBA, como os Jogos Olímpicos.
Oscar, como fazia ao receber a bola e mirar a cesta, não titubeou. Disse não ao New Jersey Nets, que o havia selecionado naquele ano, e seguiu carreira brilhante na Europa e no Brasil. Assim, continuou vestindo a camisa verde e amarela e liderando uma geração que alcançou feitos históricos, como o ouro nos Jogos Pan-Americanos de Indianápolis, em 1987.
A conquista pode parecer discreta à primeira vista, mas teve enorme impacto no basquete mundial. O Brasil venceu os Estados Unidos, então invictos jogando em casa em competições internacionais com equipes formadas por atletas universitários. Ali nascia, para o mundo, a “Mão Santa”. Foram 46 pontos, 30 apenas no segundo tempo, em uma virada histórica que impulsionou a discussão sobre a participação de jogadores da NBA em torneios internacionais.
Em 1992, Bird, Magic e Jordan formaram o Dream Team, considerado o maior time de basquete de todos os tempos. A equipe encantou o mundo em Barcelona e marcou o início da consolidação global da NBA, hoje protagonizada por atletas de diferentes nacionalidades.
O impacto de Oscar no basquete olímpico não se resume a essa mudança histórica. Dentro de quadra, em cinco participações olímpicas, construiu números impressionantes. O Brasil tem o maior cestinha da história dos Jogos Olímpicos, com mais de mil pontos. Oscar também detém a maior média em uma única edição: 42,3 pontos por jogo em Seul 1988. É ainda o maior pontuador das Copas do Mundo FIBA, com 906 pontos, e o segundo maior cestinha da história do basquete mundial, com 49,7 mil pontos.
Oscar também ajudou a transformar o estilo de jogo, valorizando os arremessos de longa distância, em detrimento do jogo próximo à cesta. Essa revolução é frequentemente associada ao norte-americano Stephen Curry, mas Oscar já demonstrava essa tendência décadas antes. Na vitória contra os Estados Unidos, em 1987, o Brasil converteu dez bolas de três pontos, número incomum à época. Sete delas escorregaram pelos dedos da “Mão Santa”.
Toda essa trajetória o levou ao Hall da Fama do basquete, em 2013, em Springfield, Massachusetts. Coube a Larry Bird dar as boas-vindas ao brasileiro no seleto grupo de lendas do esporte. No Brasil, apenas Ubiratan Pereira Maciel e Hortência Marcari também integram o Hall da Fama internacional. Em discurso emocionante, Oscar homenageou a esposa Maria Cristina, que o ajudava nos treinos desde o início da carreira, pegando rebotes para que ele aperfeiçoasse os arremessos que se tornaram sua marca registrada. Poucos dias antes de sua morte, também foi incluído no Hall da Fama do Comitê Olímpico do Brasil, mas não pôde comparecer por motivos de saúde.
Embora tenha nascido em Natal, foi em Brasília que Oscar teve contato com o basquete. Aos 13 anos, o jovem alto e desengonçado foi descoberto e lapidado pelo treinador Laurindo Miura, no tradicional Clube Vizinhança, na Asa Sul. Aos 16, mudou-se para São Paulo, onde construiu carreira de destaque e formou, ao lado de Marcel, uma das duplas de alas arremessadores mais marcantes da história do esporte nacional.
O legado de Oscar vai além das cestas e dos títulos. É exemplo de disciplina e obstinação. O talento para os arremessos certeiros nasceu de treinamento intenso e repetição. Ele próprio costumava dizer que sua mão não era santa, mas treinada. As críticas por não ser um grande defensor ou por não passar tanto a bola foram superadas por atuações memoráveis, raça e entrega em cada partida.
O amor de Oscar pelo basquete sempre foi evidente e inspirador. Um sentimento que se confundia com as cores verde e amarela. Sua dedicação em defender o país o coloca ao lado de ícones como Pelé e Ayrton Senna. Oscar Schmidt deixa um legado que transcende o esporte e que merece ser preservado e transmitido às próximas gerações.
*Colunista do Correio da Manhã