'De perto ninguém é normal'

O problema é que a anormalidade de notícias chocantes e desumanas que o noticiário tem divulgado nos últimos meses é assustadora.

Por Sérgio Cabral*

O segredo para o efetivo combate e repressão é a denúncia

O título desse artigo é um trecho da letra genial da música "Vaca Profana", de Caetano Veloso. É verdade, de perto ninguém é normal. O problema é que a anormalidade de notícias chocantes e desumanas que o noticiário tem divulgado nos últimos meses é assustadora.

Casos de violência contra mulheres e feminicídio, pedofilia, racismo, homofobia, maus tratos a idosos, maus tratos a animais e tantas outras barbaridades produzidas por seres humanos de nosso país.

Sobre a barbárie que se acumula no nosso dia a dia, creio que há duas conclusões a serem feitas: por um lado tem muita mente humana do mal, mas por outro o aparelho público estatal oferece, hoje, mais estrutura, ainda que longe do ideal, para que as pessoas denunciem, além da enorme contribuição das redes sociais, junto com a imprensa, na divulgação e publicização dessas atrocidades.

Essas perversidades, infelizmente, sempre ocorreram no Brasil. Pedofilia, maus tratos às mulheres e feminicídio, racismo, homofobia, maus tratos a idosos, maus tratos a animais, e outras atrocidades. Mas hoje há uma estrutura nos poderes executivo, legislativo e judiciário e ministério público mais consistentes no combate, repressão e criminalização desses maus feitos.

As redes sociais, no que pese o lado horroroso e ilegal da deep web, tem dado enorme contribuição ao divulgar e viralizar as atrocidades cometidas por esses criminosos.

O aumento nas estatísticas de todos esses crimes também nos leva a essa dupla conclusão: maldade e perversidade humanas x melhor aparato estatal, maior exercício da cidadania e contribuição das redes sociais e imprensa.

O segredo para o efetivo combate e repressão é a denúncia. Quem for ou vir um semelhante ser humilhado, ou um animal mal tratado, deve denunciar imediatamente às autoridades e, por outro lado, botar a boca no trombone e divulgar aos quatro cantos pelas redes sociais.

O ovo da serpente da maldade e do desprezo ao semelhante tem, inclusive, representação em organizações políticas que alimentam o nazifascismo disfarçado. A extrema direita.

Acabei de ler o extraordinário livro do jornalista e escritor Ruy Castro, "Trincheira Tropical", que relata o período que antecede a Segunda Guerra Mundial e todos os anos dela, sob a perspectiva do Brasil e, particularmente, da cidade do Rio de Janeiro, então capital da República. Nele, o ovo da serpente da extrema direita é traduzido no fenômeno da Ação Integralista Brasileira, a versão tupiniquim do nazifascismo, liderado por Plínio Salgado com seus "camisas verdes" e a saudação "anauê". 

Milhares de jovens, intelectuais e formadores de opinião no final da década de 20 e toda a década de 30 e início dos anos 40 marcharam com Plínio Salgado em busca da "pureza" da raça brasileira. Militares de alta patente também aderiram ao movimento, que se inspirava em Mussolini e Adolf Hitler.

Portanto, nos inspiremos em Caetano e Gil na extraordinária música "Divino Maravilhoso", magistralmente interpretada por Gal Costa: "É preciso estar atento e forte…"

*Jornalista. Instagram: @sergiocabral_filho