Retrocesso em Santa Catarina

O governo de Santa Catarina acabou com a política de cotas raciais de acesso à sua universidade estadual e as que recebem verbas do governo estadual.

Por Sérgio Cabral*

Governador de Santa Catarina, Jorginho Mello

O governo de Santa Catarina acabou com a política de cotas raciais de acesso à sua universidade estadual e as que recebem verbas do governo estadual. Um retrocesso gravíssimo na luta antirracista e de afirmação de uma parte significativa da nossa população preta e parda que sofreu durante séculos a perversidade da escravidão e que, após o fim da escravatura, enfrentou a sua marginalização em todos os cantos do Brasil.

De 1888 até 2001, o Brasil jamais teve políticas públicas afirmativas que permitissem aos jovens pretos e pardos acesso compensatório às universidades públicas de nosso país. Durante todo o século XX nossas universidades públicas foram povoadas de estudantes brancos oriundos, em sua maioria, de escolas e colégios da elite.

A população custeou, durante esse período, professores e profissionais de apoio a serviço da elite brasileira, com raras exceções de jovens pretos e pardos que alcançaram com esforço hercúleo nossas instituições públicas de ensino superior. Bastava ver os pátios de estacionamento das universidades públicas e verificar automóveis do ano que ali paravam seus possantes às custas do dinheiro público.

Nada contra. Mas tudo contra a disputa desigual.

O Brasil é um país com quistos de racismo ainda não superados. Daí que, em 2001, como presidente da Assembleia Legislativa do Rio, liderei a inclusão de cotas raciais na mensagem do executivo estadual que criava o acesso às universidades estaduais aos alunos oriundos das escolas públicas de ensino médio. Na época, até deputados da esquerda, como Chico Alencar, foram contra a inclusão das cotas raciais. Mas consegui convencer a maioria dos meus colegas de que a hora da reparação histórica havia chegado. O próprio Chico registrou seu questionamento contrário, mas votou conosco.

São quase 25 anos da primeira lei de cotas e a Universidade Estadual do Rio de Janeiro e a Universidade Estadual do Norte Fluminense já formaram milhares de jovens pretos e pardos em todos os campos do conhecimento e que estão aí, contribuindo para o progresso do país e inseridos no mercado de trabalho.

Em 2011, como governador do estado do Rio de Janeiro, aprovamos a primeira lei de cotas raciais nos concursos públicos do estado. De lá pra cá, nesse 15 anos, passamos a ter muito mais profissionais pretos e pardos na procuradoria do estado, na defensoria pública, entre os auditores da receita, professores, delegados e oficiais da polícia, entre outras categorias do serviço público do estado.

Diariamente nos deparamos com casos de racismo no Brasil. Não se enfrenta essa chaga sem políticas afirmativas. É uma doença endêmica de nossa sociedade. As pessoas racistas explicitamente ou enrustidas recorrem à meritocracia. Como se o esforço por si só fosse capaz de consertar uma situação secular. Não é!

Qualquer dúvida, vá a um restaurante chique, a um shopping mais caro, a um consultório de um médico medalhão, à classe executiva de um voo, e verifique quantos pretos e pardos estão por lá.

Santa Catarina, um estado maravilhoso, de gente trabalhadora e que tanto contribui para o progresso do Brasil, não merece ser marcada por tal retrocesso.

*Jornalista. Instagram: @sergiocabral_filho