Por: Rudolfo Lago

Correio Político | O Exército na reta final da Comissão Mista

Exército: erros individuais, não da instituição | Foto: Antonio Cruz/Agência Brasil

As áreas jurídicas do Exército acompanham de perto a reta final dos Atos Golpistas. Não para dar algum tipo de assistência aos militares que se enrolaram nos lamentáveis atos de 8 de janeiro e em outros que dão a roupagem de que determinados indivíduos do governo anterior, das Forças Armadas e da sociedade tramavam dar um golpe de Estado. Acompanham justamente porque a grande preocupação do Exército é deixar clara uma separação da conduta da instituição da eventual conduta de algum general, coronel, tenente ou seja de qual patente for. De acordo com um militar com trânsito na cúpula do Exército, desde o início ficou claro a cada militar envolvido que ele contratasse seus próprios advogados particulares.

 

Mensagem

Para esse militar, um trecho da troca de mensagens entre o tenente-coronel Mauro Cid, ex-ajudante de Ordens de Bolsonaro, e o coronel Jean Lawand Junior dá a chave de como àquela altura era a possibilidade de o Exército aderir a um golpe.

Não confia

Lawand sugere a Mauro Cid que Bolsonaro deveria dar uma ordem ao Exército. E Mauro Cid responde que Bolsonaro, naquele momento, "não confia" no Alto Comando. Essa conversa, acredita o militar, foi posterior à reunião na qual Bolsonaro sondou os comandantes.

Comandante do Exército falava pelo Alto Comando

Freire Gomes já sabia a posição do Alto Comando

Na sua delação, Mauro Cid afirma que Bolsonaro teria feito uma reunião com os comandantes das Forças Armadas, na qual teria levado a minuta sobre a possibilidade de decretação de um Estado de Defesa. Bolsonaro sondou os comandantes sobre a possibilidade de apoio à decretação, e só obteve aval do comandante da Marinha, almirante Almir Garnier. Segundo esse militar, ao negar o apoio à ideia, o comandante do Exército, general Freire Gomes, já não falava somente por ele. Falava em nome de todo o Alto Comando da força. É por isso que Mauro Cid, então, responde a Lawand que Bolsonaro "não confia" no Alto Comando.

Voz de prisão

Esse militar, porém, acha fantasiosa a história de que nessa reunião Freire Gomes teria ameaçado dar "voz de prisão" a Bolsonaro caso ele insistisse na ideia. "Bolsonaro era o chefe das Forças Armadas, e os militares têm um alto sentimento de hierarquia", considera ele.

Brecha

Aparentemente, ao fazer a reunião, Bolsonaro procurava, na visão desse militar, uma "brecha" qualquer que viesse a justificar a tal decretação do Estado de Defesa. Ouviu juristas, não obteve resposta. Ouviu os comandantes militares, não as obteve também.

Instituição

Assim, institucionalmente, a aventura não obteve apoio. Mas obteve, sim, diversos apoios individuais de alguns que acreditavam que aquilo poderia dar certo. Como são militares e usam farda, e respondem pelo que fizeram, não deixam de constranger a instituição.

Ordens

"O advogado de Mauro Cid está errado. Não é toda ordem que tem que ser cumprida", diz esse militar. Ainda que pudesse ser difícil para ele se negar a fazer, quando fraudou certificado de vacina ou quando saiu por aí vendendo relógios, Cid extrapolou.

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