Embaixador indicado por Trump diz que defenderá "eleições livres" no Brasil

Diplomatas brasileiros viram com estranheza timing da indicação de Daniel Perez; deputado dos EUA prometeu defender "eleições livres" no Brasil

Por Lucas Gayoso e Paulo Cappelli

Deputado Daniel Perez foi indicado por Donald Trump para o cargo de embaixador

Indicado por Donald Trump para assumir a Embaixada dos Estados Unidos no Brasil, Daniel Perez afirmou que defenderá a realização de "eleições livres e justas e a liberdade de expressão" no país.

A declaração foi dada durante sabatina no Comitê de Relações Exteriores do Senado norte-americano, em 16 de julho.

Timing

O timing escolhido por Trump para fazer a indicação, a poucos meses da eleição que tem Lula e Flávio Bolsonaro como principais candidatos, também chamou a atenção de aliados do presidente.

A Embaixada dos Estados Unidos em Brasília estava sem titular desde a saída de Elizabeth Frawley Bagley, que havia sido indicada por Joe Biden.

Com a vitória de Trump em 2024, a embaixadora deixou o cargo à disposição, e a representação diplomática americana permanecia sem uma indicação até Trump anunciar Perez.

Causou estranheza entre aliados de Lula o fato de Trump ter mantido a embaixada sem um titular por um longo período e decidido indicar um nome justamente na proximidade das eleições brasileiras.

Para esses interlocutores, o discurso de Perez no Senado dos EUA reforçou uma percepção que já existia.

"Apoiarei as instituições democráticas do Brasil e defenderei condições que permitam eleições livres e justas e a liberdade de expressão, porque um Brasil estável e democrático é um parceiro melhor para os Estados Unidos", disse Perez durante a sabatina.

Votação está próxima

O nome do deputado republicano integra um pacote de indicações para cargos no governo, no Judiciário e em representações diplomáticas que deve ser analisado em bloco pelos senadores, nos próximos dias.

Mesmo que seja aprovado pelo Senado americano, Perez ainda dependerá do agrément — o aceite formal do governo brasileiro — para assumir a Embaixada dos Estados Unidos em Brasília.

Brasil ainda avalia situação de Perez

Integrantes do Itamaraty ressaltam, porém, que o governo brasileiro não recusou a indicação. Perez foi anunciado por Trump há cerca de dois meses, intervalo que ainda está dentro da normalidade dos protocolos diplomáticos, em que pese o desconforto da Casa Branca.

A Convenção de Viena sobre Relações Diplomáticas não estabelece um prazo máximo para que um país conceda ou negue o agrément. Contudo, na prática esse prazo costuma variar entre poucas horas, quando já há um acordo prévio entre chefes de Estado, a até quatro meses.

O quase embaixador Crivella

No caso do senador Marcelo Crivella, indicado por Bolsonaro em 2021 para a chefiar embaixada na África do Sul, o Brasil só retirou a indicação seis meses depois, interpretando a demora, acima do habitual, como uma recusa.

Tensão diplomática

A discussão ocorre em meio à crise diplomática com Washington. Nesta semana, os Estados Unidos revogaram o visto da embaixadora do Brasil em Washington, Maria Luiza Viotti.

A coluna antecipou, em 28 de julho, que Washington já demonstrava incômodo com a demora do governo Lula em conceder o agrément ao indicado de Trump.

O Itamaraty, por sua vez, também viu como descortesia o fato de os Estados Unidos terem oficializado a indicação antes de submetê-la previamente à análise do governo brasileiro, procedimento considerado padrão na diplomacia.