Dirceu cita chapa de Lula como trunfo e diz que aliança com Trump prejudica Flávio
Em entrevista exclusiva, José Dirceu opina sobre a eleição e mostra otimismo para vitória do PT
Em entrevista exclusiva, o ex-ministro José Dirceu avaliou o cenário da disputa presidencial de 2026, comentou a relação entre Brasil e Estados Unidos e analisou os principais temas da política nacional. Na conversa, afirmou que acredita que a aproximação de Flávio Bolsonaro com o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, tende a prejudicar mais do que ajudar a campanha do senador ao Palácio do Planalto.
Dirceu também demonstrou otimismo em relação à candidatura à reeleição do presidente Lula (PT) e disse considerar que a chapa montada pelo petista é "muito forte", destacando as alianças partidárias e um possível cenário político favorável ao governo.
O senhor está enfrentando um linfoma, aos 80 anos de idade. Como está a saúde?
Realmente, eu descobri em maio um linfoma no duodeno, que é um órgão pequeno, 32 centímetros, tem 10, um linfoma agressivo, mas curável.
Comecei o tratamento, está indo bem, sem grandes intercorrências, seguindo o protocolo. Tem sempre 21 dias: uma semana de aplicação em casa. A primeira é no hospital, em casa são 6, termina 31 de agosto.
Estou seguindo o tratamento, não posso sair de casa, porque a imunidade tem que estar sob controle, mas tenho indiretamente participado de todas as atividades políticas que posso, profissionais também, cuidando mais da família também.
Em relação à campanha presidencial, como o senhor avalia a situação de momento?
Eu avalio que é uma campanha que começou por causa da aliança que foi formada, mantendo o Geraldo Alckmin (PSB) de vice, nos coligando com o PDT, com o PSB, que é a primeira vez, todos os partidos estão juntos, além do PSOL, Rede, PT, PV e PCdoB.
Segundo, a unidade dentro do PT, consenso de manter essa aliança. Terceiro, nós temos apoio de uma parcela importantíssima do MDB. Pode-se dizer que o MDB do Norte e do Nordeste está com o Lula.
E no PSD, com a ida do Gilberto Kassab para ser vice do Caiado, liberando os ministros para que individualmente permanecessem no governo. Liberou os estados para apoiar os candidatos, e o Lula tem apoio em estados importantes do PSD, além dessa opção da União Brasil, PP e dos Republicanos, que podem ficar neutros.
Eu acredito que o cenário é muito favorável para a gente e, lógico, que a eleição se ganha na campanha. Mas a campanha, o governo tem o que demonstrar que fez.
É evidente que a direita e a extrema-direita no país têm maioria no Parlamento. Aliás, a direita, sem o Bolsonaro e isso sem nós, tem maioria na Câmara e no Senado. Essa é uma realidade.
Agora, nós somos muito fortes. Nós ganhamos cinco de seis eleições e, na eleição de 18, onde nós estávamos sob repressão política e jurídica, a gente foi para o segundo turno com 32 milhões de votos e fez mais 45% dos votos, próximo disso, no segundo turno.
O senhor acredita que a proximidade de Flávio Bolsonaro com o governo Trump mais atrapalha a candidatura dele do que ajuda?
Não tenho dúvida nenhuma, e as pesquisas estão mostrando isso. Porque é inadmissível. Imagina se um senador americano ou um deputado, um ex-deputado, viesse ao Brasil fazer o papel que o Eduardo e o Flávio Bolsonaro estão fazendo. Eles seriam condenados à morte nos Estados Unidos, e rápido.
É um escândalo. É uma infâmia o que eles fazem. Eles se aliarem a uma potência, a maior potência do mundo, para politicamente prejudicar o Brasil, intervir nos assuntos internos do Brasil, com relação ao Supremo, com relação à Presidência, com relação às eleições.
Uma das razões para o tarifaço é a condenação, é a eleição, porque o tarifaço em si não tem nenhuma explicação comercial, porque o Brasil não tem contencioso grave com os Estados Unidos. Pode ter contencioso político, mas isso é natural entre os países.
A população brasileira rejeita a intervenção dos Estados Unidos no PIX, mas, por outro lado, apoia a classificação de PCC e CV como organizações terroristas. Essa leitura que o senhor faz também?
Eu faço, mas não porque sejam terroristas nos termos que os Estados Unidos estão dizendo, mas sim porque é um bota-terror.
Pode lembrar do noticiário nas televisões, há dois, três, quatro anos atrás, quando há o choque entre as facções criminosas no Rio de Janeiro, mas mesmo em outros estados, como em Salvador. São Paulo tem menos isso, porque o PCC é o único que não disputa armas, não controla territórios, vendendo serviço, cobrando pedágio. É outra coisa, virou uma empresa, vamos dizer assim, entre aspas.
O problema dos Estados Unidos é dar um pretexto para intervir nas relações dos outros países. A guerra contra o terror foi iniciada com o Reagan, eu me lembro disso, na década de 80. Não deu certo.
O combate às organizações e às facções criminosas no Brasil está sendo feito, aliás, até pelos governos estaduais agora, e o governo federal, quando fez a PEC da Segurança, a Lei de Facções e a Lei do Perdimento, e iniciou as operações como a Carbono, mudou a sua atitude.
O senhor acredita que após essa classificação os Estados Unidos vão intervir no Brasil?
Não vejo razão para eles intervirem no Brasil. Se você pegar o governo de São Paulo nesses últimos 60 dias, ou a Polícia Civil do Rio, e mesmo no Ceará, na Bahia. Em vários estados do Brasil há um combate diário e cada vez mais sofisticado, com mais inteligência, mais integração e atacando o coração das facções criminosas. Isso é uma luta.
Aliás, dentro dos Estados Unidos há muitas facções criminosas. Porque como é que se distribui, como é que morrem 120 mil americanos por ano por causa de drogas sintéticas? Por que o problema é tão grave nos Estados Unidos? Porque evidentemente também existem facções criminosas lá, que aliás o Trump devia primeiro começar a declarar como organizações narcoterroristas as que estão lá dentro.
Qual é o verdadeiro objetivo do Trump, na sua concepção?
Ele já deixou claro que apoia a família Bolsonaro. Coloca em dúvida as eleições. Vamos olhar o que o Trump está fazendo nos Estados Unidos. Nós queremos isso para o Brasil? Pergunto aos brasileiros: vocês querem a presidência que o Trump está fazendo lá?
Levando o país a várias guerras, montando uma fraude no sistema eleitoral, proibindo o voto pelo correio, desestimulando o voto das mulheres, reproduzindo discursos de que mulheres não sabem votar, tentando mudar distritos para criar uma maioria artificial, promovendo ofensiva contra imigrantes, pressionando a imprensa, pressionando as universidades, violando a liberdade de cátedra e a autonomia universitária.
O senhor teme que os EUA intervenham durante as eleições presidenciais no Brasil?
Do ponto de vista direto, não. Mas indiretamente já estão. Esse favorecimento à família Bolsonaro, quando Eduardo Bolsonaro vai para os Estados Unidos, se estabelece lá, e eles passam a dar abrigo, inclusive ao Allan dos Santos, ao Paulo Figueiredo e a quem for, para operar a favor da sua família e da candidatura do irmão, do pai ou de qualquer outro.
Como o senhor avalia a atuação do ministro Alexandre de Moraes no STF?
Ele e o STF cumpriram a Constituição no caso dos atos de 8 de janeiro e da tentativa de golpe de Estado, porque está comprovado que houve uma tentativa de golpe. Inclusive de envolver o Estado-Maior das Forças Armadas, o Estado-Maior do Exército, da Marinha e da Força Aérea Brasileira. As declarações e os depoimentos mostram isso.
Então, acho que cumpriram a Constituição. Eu não vejo isso como uma atuação individual do Alexandre de Moraes. Cada ministro recebe os seus processos. Assim como o Flávio Dino está cuidando das ações relacionadas às emendas parlamentares, o Alexandre de Moraes ficou responsável pelo inquérito das fake news e pelos demais processos que lhe foram distribuídos.
Eu vejo que ele está atuando dentro da Constituição e da legislação. Se há algo que infrinja o Código Penal, o Código de Processo Penal, o Regimento Interno do Supremo ou a própria Constituição, cabe a cada um recorrer e tentar mudar a decisão do Supremo Tribunal Federal, como foi no meu caso.
O que não se pode é querer fazer impeachment de ministro ou querer mudar o Supremo por causa de decisões do próprio Supremo.
A reforma do Judiciário é necessária, mas não por causa das decisões do Supremo. Ela é necessária como também são necessárias uma reforma do Estado e uma reforma política.
Qual reforma do Judiciário o senhor defende?
O primeiro é que tem que ser um pacto republicano. Tem que envolver o Judiciário, o Congresso Nacional, a Presidência, a OAB e tem que envolver o país nisso. Nós não podemos fazer contra o Poder Judiciário. O próprio Poder Judiciário já começou a discutir.
Vamos lembrar que o presidente Lula fez uma reforma do Judiciário, com súmula vinculante, repercussão geral e o Conselho Nacional de Justiça (CNJ), que era o controle externo. O Conselho precisa ser mudado, é o primeiro ponto, porque virou um pouco um sindicato corporativista. Precisa ser ampliado e mudado.
É preciso discutir as funções do Supremo Tribunal Federal, da Corte Suprema. Se vai ser uma Corte Constitucional ou se vai manter hoje as atribuições que tem, que são infraconstitucionais.
Há outras questões para serem resolvidas, como mandato, idade mínima, código de ética. E há também questões de informatização, questões processuais, do regimento interno e das decisões monocráticas.
O senhor defende mandato para ministros do STF? De quantos anos seria?
Eu sou aberto para essa questão. Não vejo que essa seja uma questão principal. Muitos defendem 12 anos de mandato para os ministros. Aliás, alguns ministros ficam só dez anos. Caso do Nelson Jobim, por exemplo, e do Joaquim Barbosa.
Recentemente Gilmar Mendes chegou a ressuscitar uma ação que poderia mudar as regras de impeachment de ministros do STF. Ele queria que essa competência ficasse apenas com a PGR. Qual é a posição do senhor?
É uma matéria que cabe ao Congresso Nacional. O Poder Legislativo é o poder supremo do país, porque vem da soberania popular. Tem origem na vontade e na soberania popular. O presidente da República é eleito, o senador é eleito, o deputado é eleito.
O Supremo é indicado pelo presidente da República, conforme a Constituição, e confirmado, ou não, pelo Senado da República.
O senhor defende a continuidade ou o término da prisão domiciliar para Jair Bolsonaro?
Eu sempre defendi a prisão domiciliar, falei isso desde o começo. O Jair Bolsonaro não tem condições de cumprir pena no sistema penitenciário. Ele não tem condições psicológicas, não tem dignidade, não tem coragem para isso. Não quer assumir os erros que cometeu, a responsabilidade que teve. Ele comandou um golpe de Estado, era presidente da República, e não assume.
Eu sempre defendi que ele ia se fazer de vítima e que tinha risco de ter um problema grave de saúde.
Está havendo uma crise entre Flávio e Michelle Bolsonaro. Isso ajuda o presidente Lula?
Eu acho que essa crise é ruim para eles, porque mostra que é um clã, que são interesses familiares, interesses menores. É intriga, é disputa de espólio, como se fosse uma herança de bilhões. No caso, é uma herança político-eleitoral, porque não é administrativa, não é de realizações.
E mostra também a extrema direita brasileira muito envolvida com esse clima de intrigas e esse entrelaçamento que vai aparecendo cada vez mais, com ilegalidades flagrantes.
Entre os nomes da direita e da centro-direita, o senhor acredita que alguém tem condições de ultrapassar Flávio Bolsonaro e chegar ao segundo turno?¬
É improvável. Ainda que eleição... nós temos que tomar cuidado. Você lembra do Marçal aqui em São Paulo.
E aqui tem o caso do candidato do Missão, o Renan Santos, que, entre os jovens de 16 a 24 anos, tem 18% dos votos.
Mas eu não vejo que ele possa disparar, e acho bem improvável que o Zema (Novo) saia dessa porcentagem.
O deputado André Janones disse que o objetivo principal desta eleição não é apenas reeleger o presidente Lula, mas "dizimar" e "extirpar" a família Bolsonaro. Como o senhor avalia essa declaração?
Não, eu não gosto dessas declarações. "Extirpar", primeiro, não é uma palavra boa em política. Não vamos nós usar a linguagem deles. Nós queremos derrotar o bolsonarismo. Derrotar nas urnas. Esse é o nosso objetivo. E derrotar nas ideias, naquilo que eles pregam para o país. Nós temos outras propostas para o Brasil.
Inclusive, eu conversei com pessoas da esquerda que acham que a esquerda errou em vários momentos quando tratou como inimigo quem era apoiador do Bolsonaro.
Porque não se pode brigar com o eleitor. Tem que brigar com as ideias. Você não é contra alguém porque ele é evangélico, por exemplo. Você discorda das propostas e das ideias que ele tem para os problemas do país.
Recentemente eu fiz uma entrevista com Flávio Bolsonaro e ele acusou o diretor-geral da PF, Andrei Rodrigues, de blindar o Lulinha no caso do INSS. Como o senhor avalia essa declaração?
Ele se pôs à disposição das autoridades. O sigilo bancário dele foi exposto publicamente. Não foi encontrado nada. Ele vai responder. O presidente Lula já disse: seja filho dele ou não, tem que responder pelos atos que praticou.
Ele está respondendo, está à disposição da Justiça. O presidente Lula não fez nenhuma intervenção, nenhum pedido, nenhum apelo. O que muitas vezes foi evitado foram convocações que só tinham objetivo político.
A OAB pediu que Alexandre de Moraes reveja a decisão que suspendeu as visitas de Flávio ao pai. O senhor defende que ele possa voltar a visitar?>>
Como advogado, sim. Ele tem esse direito, como muitos visitaram o presidente Lula. Você se lembra. Muitos de nós visitamos. Vai como advogado, mas tem que se comportar como tal.
Evidentemente que vai tratar de assuntos políticos com o pai, mas ele tem o sigilo da advocacia quando trata com o cliente. Aí é uma questão da consciência dele.
Se Lula for reeleito em 2026, em 2030 não poderá disputar um novo mandato. O senhor acredita que a esquerda já tem quadros para sucedê-lo?
Não acredito que a esquerda tenha, nem a direita, alguém à altura do Jair Bolsonaro e do presidente Lula. Porque eles são líderes. Como no passado nós tivemos outros, que se constituíram como grandes líderes de uma base eleitoral e social muito forte.
Com o Lula nós vencemos cinco de seis eleições, e ele está indo para uma sexta eleição. Então o PT tem uma base social e eleitoral. Foi o partido mais votado para a Câmara até 2022. Essa é a primeira questão.
A segunda é que nomes existem, porque eles vão surgindo.
O próprio Fernando Haddad (PT) já foi prefeito de São Paulo, já foi candidato a governador, candidato a presidente. Ele já tem um recall e, com o apoio do presidente Lula — porque o Lula não será candidato, mas continuará tendo força política e eleitoral —, evidentemente é um nome.
Nós temos outros nomes. Ex-governadores com muita experiência de governo, como Camilo Santana (PT), Rui Costa (PT).
E temos outras lideranças que vão surgir nesses quatro anos, seguramente. Como parlamentares ou como lideranças populares. O Guilherme Boulos (Psol) é uma promessa, e outros.
O senhor defendeu mais mulheres ocupando espaços de poder. Agora, o presidente Lula decidiu indicar novamente Jorge Messias, da AGU, para o STF. O senhor defende essa nova indicação?
Nesse caso, eu defendo a nova indicação. O Senado da República não recusou o nome do Jorge Messias por falta das exigências constitucionais.
Se o André Mendonça cumpria os requisitos — e nós votamos a favor dele, sem vetar seu nome por razões políticas —, a recusa ao Jorge Messias foi uma decisão política.
O presidente Lula tem todo o direito de reapresentar a indicação, e o Senado terá que tomar uma decisão, como tomou anteriormente ao rejeitar o nome dele. Agora, no Supremo, e no Poder Judiciário de forma geral, nós precisamos de mais mulheres.
Há uma avaliação de que essa nova indicação de Jorge Messias só deverá ser apreciada pelo Senado depois da eleição.
Isso depende de um brasileiro chamado Davi Alcolumbre (União). Ele tem o apoio de uma base expressiva de senadores bolsonaristas e de direita, que está em disputa política conosco.
Há um impasse entre Alcolumbre, uma maioria expressiva de senadores e senadoras, e o presidente Lula. Isso está sendo negociado pelos líderes do governo, como Teresa Leitão, Camilo Santana, José Guimarães e Pedro Uczai.
O senhor acredita que Fernando Haddad conseguirá crescer na disputa contra Tarcísio de Freitas?
Eu avalio que nós temos muitas possibilidades. Vai ser uma disputa dura, mas nós temos chance pela chapa que fizemos: Marina Silva (Rede) e Simone Tebet (PSB) estão em primeiro lugar nas pesquisas. Márcio França (PSB), Haddad, Geraldo Alckmin presente aqui em São Paulo na campanha e o presidente Lula. Nós já temos maioria na Grande São Paulo e temos propostas para o interior.