Negócio bilionário do Globo/MGM abalado com a MP de Lula contra apostas on-lines
Chegada da TV interativa iria turbinar as apostas durante transmissões esportivas
O fim das bets vai deflagrar uma guerra na qual a população sabe como começa, mas não sabe como termina. O universo das apostas on-line é um negócio muito sério, envolve parceiros parrudos e com bala na artilharia. Querem um exemplo? O Grupo Globo firmou sociedade direta com a gigante norte-americana MGM Resorts International para operar no mercado brasileiro de apostas. A parceria foi estruturada por meio de uma joint venture (uma empresa em conjunto), chamada Boa Lion, criada para gerenciar as operações da marca BetMGM no país.
Anunciada originalmente em agosto de 2024, a operadora obteve sua licença federal definitiva do Governo Lula, no final daquele ano, e iniciou oficialmente os seus serviços no mercado brasileiro em fevereiro de 2025. A MGM detinha o controle majoritário da operação, enquanto o Grupo Globo atuava como sócio estratégico nacional.
A estratégia da parceria era unir a tecnologia, as plataformas de cassino e a experiência em jogos da MGM Resorts com o gigantesco alcance de mídia do Grupo Globo, que estava usando a sua força na TV e no meio digital para escalar e promover a marca. Havia planos, inclusive, de conectar a BetMGM a propriedades intelectuais da emissora, como o fantasy game Cartola FC.
Agora, em junho de 2026, a sociedade formada por Globo e MGM chegou a avançar no mercado ao fechar a compra de 100% da empresa Bingão do Brasil (uma desenvolvedora de vídeo-bingo digital que tinha o apresentador Luciano Huck entre os investidores indiretos).
Com a assinatura da Medida Provisória que determinou a proibição total e a extinção de todas as licenças de apostas no Brasil, a estratégia corporativa da sociedade foi atingida no coração.
Como reflexo imediato e para se adequar à nova lei federal, a Globo emitiu um comunicado interno ordenando a retirada antecipada de absolutamente todos os anúncios de bets de suas plataformas de TV (aberta e fechada) e canais digitais. O encerramento definitivo imposto pela MP atinge as duas principais frentes financeiras da emissora: as centenas de milhões de reais que faturava vendendo espaço publicitário para outras casas de apostas e o seu próprio investimento direto como sócia na operação da BetMGM.
A compra do Bingão do Brasil em junho sinaliza que os grupos Globo e MGM foram pegos de surpresa com uma decisão radical do presidente Lula. A expectativa era de uma mudança das regras, com medidas mais duras, o que na análise interna do grupo poderia até sanear o mercado, afastando os players mais frágeis, fortalecendo os operadores mais robustos.
A grande dificuldade da família Marinho e dos seus executivos é explicar aos sócios da MGM o cenário de insegurança jurídica do Brasil. Como uma canetada de Lula vai evaporar outorgas vendidas pelo próprio Governo.
Lula acabou ferindo um dos negócios mais promissores da família Marinho que tinha um peso até maior com a participação acionária do grupo no Nubank.
A Globo é acionista minoritária do Nubank, embora a participação seja muito pequena (menos de 1% do banco) e tenha sido construída de forma discreta. O investimento foi estruturado por meio da Globo Ventures (o braço de investimentos em inovação e venture capital da família Marinho). Em vez de aplicar dinheiro vivo na fintech, a Globo utilizou um modelo de negócios chamado “media for equity” (mídia em troca de participação societária).
Em uma fase futura, os interesses do Nubank e da Globo/MGM criariam uma sinergia na construção de novos produtos inter-comunicantes, principalmente com a chegada da TV 3.0, um sistema interativo de reemissão que já está em testes.
A integração com a TV 3.0 (o novo padrão de TV digital aberta chamado DTV+) era considerada o “pulo do gato” da sociedade entre o Grupo Globo e a MGM Resorts. A intenção da emissora era revolucionar o mercado ao transformar o aparelho de televisão em uma plataforma de apostas em tempo real por meio do controle remoto.
Com os testes da TV 3.0 expandindo em praças, como Rio de Janeiro e São Paulo, para as transmissões de futebol, o modelo de negócios da BetMGM funcionaria integrando o sinal da antena com a internet de banda larga de forma inédita.
Lula atirou no que viu e acertou no que não viu ao acabar com as bets. Tirou da Família Marinho o negócio mais promissor, capaz de afastar qualquer ideia de venda da TV, como ocorreu em passado recente, inclusive, no caso da reeleição de Bolsonaro. O que não se imaginava era que o Lula fosse o algoz do negócio que estava sendo gerido nos bastidores com a chegada da TV 3.0, que, aliás, teve como principal articulador o ex-ministro das Comunicações de Bolsonaro, Fábio Faria.
O próximo passo da Globo MGM era as apostas instantâneas: “um Clique” no Controle Remoto. A TV 3.0 permite a criação de aplicativos integrados e menus interativos que rodam sobrepostos à imagem da transmissão. Durante um jogo do Brasileirão ou da Seleção Brasileira, o telespectador veria surgir barras laterais automáticas na tela. Sem precisar tirar os olhos da TV ou desbloquear o celular, o usuário utilizaria o controle remoto para fazer uma aposta rápida em qual time faria o próximo gol ou teria o próximo escanteio, além de conectar instantaneamente o login da sua conta BetMGM diretamente no televisor. Todo este planejamento virou pó com a medida provisória de Lula.
A DTV+ foi desenvolvida para exibir janelas secundárias com dados ao vivo (escalações, posse de bola, cartões e mapas de calor). A estratégia comercial previa “casar” essas informações jornalísticas e técnicas do portal GE com as cotações (odds) de apostas flutuantes da BetMGM, incentivando o chamado live betting (apostar no calor do momento enquanto assiste ao evento em altíssima definição). Um negócio que multiplicaria os números atuais relacionados às bets no Brasil. O céu era o limite!
Havia planos de estender os recursos do DTV+ para gamificar a programação. Um torcedor poderia usar a interatividade para escalar seu time no Cartola FC na tela e, na mesma interface, efetuar transações e jogos associados aos atletas na BetMGM.
Como a nova Medida Provisória baniu de forma categórica a oferta, a intermediação e qualquer tipo de publicidade ou envolvimento tecnológico com apostas on-line, esse modelo de negócios foi completamente abortado, por enquanto. A Globo continuará usando os recursos inovadores da TV 3.0 (múltiplas câmeras, áudio imersivo e e-commerce tradicional), mas a vertente que transformaria o televisor em um terminal doméstico de cassino e apostas esportivas foi enterrada.
O setor de apostas on-line acredita que, após a eleição, será a própria força da Globo/MGM que poderá desenhar uma retomada das apostas esportivas, eliminando definitivamente apenas o segmento de apostas de cassinos on-lines.
Com a chegada da TV 3.0, outras redes nacionais de televisão estavam negociando parcerias semelhantes e também com players robustos. É neste caso que alguns sinais já foram emitidos pelo Planalto pedindo cautela e paciência. O problema é a perda de confiança dos parceiros internacionais sérios.
A medida intempestiva de Lula, no caso das bets, da forma que foi feita, vai ter desdobramentos maiores. O mercado esperava uma medida menos radical e não que as 80 outorgas vendidas a R$ 30 milhões, cada, fossem rasgadas pelo próprio poder concedente, criando um cenário de insegurança jurídica nunca visto em um país de dimensões continentais e de uma economia como o Brasil.
O cerne do problema é a insegurança jurídica que é causada com a canetada presidencial. É Lula desfazendo algo que o seu governo e, especialmente, o seu então ministro da Fazenda, Fernando Haddad, fizeram.
O gesto foi encarado como um ato de desespero do grupo lulista, elevando a eleição a uma luta de vida ou morte.