Coluna Magnavita | Cármen Lúcia, a única tocada pela vergonha?
Invocando e restabelecendo a liturgia ao cargo de presidente, a ministra Cármen Lúcia foi novamente o lampejo de sanidade naquele show de horrores ao afirmar: “eu me sinto, e estou falando apenas por mim, quem fala pelo Supremo é a vossa Excelência Presidente, eu me sinto um pouco até envergonhada, presidente, de, num momento em que o Brasil está a menos de 20 dias da eleição, estarem todos voltados a questões do Supremo, que são questões processuais, em parte, com muita expressão e com questões graves mesmo, mas nós não garantimos o rigor e a serenidade, que no meu papel de cidadã de juízo eu deveria ter, talvez, ajudado mais a promover. O Poder Judicial existe para tranquilizar o povo e nós geramos intranquilidade, acho, e essa é a minha percepção.”
Vale repetir: "O Poder Judicial existe para tranquilizar o povo e nós geramos intranquilidade, acho, e essa é a minha percepção”. Cármen Lúcia foi buscar inspiração no jurista alemão Rudolf von Ihering. Em sua célebre obra clássica de 1872, intitulada A Luta pelo Direito, ele sintetizou esse pensamento com a famosa frase: "O fim do Direito é a paz, o meio de que se serve para consegui-lo é a luta."
O que assistimos hoje é a inversão deste pensamento. A Suprema Corte de um país continental como o Brasil sendo transformada em um ringue de terceiro nível, com ofensas pessoais e manobras para esconder um verdadeiro dolo de toda a confusão: um ministro da própria corte que teve o escritório da sua família contratado por R$ 131 milhões, ou seja, US$ 26 milhões de dólares, e acusado de falar em conversas privadas com um contratante na véspera de ele ser preso.