Coluna Magnavita | Ingredientes passionais provocaram o estopim da crise entre Michelle com Flávio Bolsonaro

Por Cláudio Magnavita

Michelle Bolsonaro; Rogéria Bolsonaro; Ana Cristina

A tempestade entre Michelle Bolsonaro e o senador Flávio Bolsonaro tem pitadas passionais, que vão muito além da questão político/eleitoral. Nos bastidores, amigos da família apontam que a situação ficou ainda mais azeda após a revelação que a atual esposa de Jair não se conformou com o protagonismo dado à ex-esposa Rogéria Bolsonaro na composição da chapa ao Senado no Rio, na qual ela concorre como 1ª suplente da chapa competitiva e encabeçada por Márcio Canella.

Rogéria é mae de Flávio, Eduardo e Carlos e já foi, por dois mandatos, vereadora do Rio. Tem traquejo político e tem chances reais de ser eleita em outubro. Bem diferente da eleição de 2022, quando teve apenas 2.033 votos, ela foi eleita em 1996 com 24.891 votos. Na sua primeira eleição para a Câmara Municipal do Rio de Janeiro, disputada em 1992, Rogéria Bolsonaro obteve 7.924 votos. O crescimento eleitoral foi fruto da sua atuação política, que triplicou os votos.

O racha político entre Jair Bolsonaro e Rogéria não teve influência direta de Michele. Ele ocorreu em 2000, sete anos antes de ele conhecer Michelle, que ocorreu só em 2007. Na virada do milênio, Carlos Bolsonaro, lançado pelo pai para disputar contra a mãe, foi eleito com 16.053 votos. Rogéria obteve 5.109 votos e ficou na suplência. A diferença a favor de Carlos foi de 10.944 votos. Nesta eleição, ficaram expostas as dificuldades familiares, um pai obriga o filho a disputar contra a própria mãe, tirando a chance de conquistar um terceiro mandato. Fato que ocorreu. Existe a figura de ex-esposa, mas não existe a posição de ex-mãe. São laços eternos.

Rogéria vira uma leoa em defesa dos filhos

Rogéria sempre foi uma leoa na defesa dos filhos diante de atritos e trocas de farpas públicas entre Michelle e os enteados (especialmente após a atual esposa de Jair criticar o senador Flávio Bolsonaro). Rogéria interveio publicamente nas redes sociais. Em postagens públicas monitoradas por veículos de imprensa, agindo como super-mãe, fez questão de exaltar o caráter dos filhos, afirmando ter criado "homens dignos e honrados". Ela também comemorou publicamente a união de Flávio, Carlos e Eduardo frente às pressões externas, enfatizando que o grupo possui apenas um líder legítimo: Jair Bolsonaro — em uma clara sinalização para isolar a influência da ex-primeira-dama.

Michelle sempre rechaçou as ex-esposas de Jair

Com a chegada de Michelle em 2007, o clima de Jair Bolsonaro com suas ex-esposas azedou ainda mais. O clima da relação entre Rogéria Bolsonaro, Ana Cristina Siqueira Valle (mae de Renan) e Michelle Bolsonaro foi de alta tensão, rivalidade política e distanciamento. A relação, que historicamente já era fria com as ex-esposas, agravou-se com disputas internas pelo comando do capital político da família e embates diretos envolvendo os filhos de Rogéria e Renan, de Ana Cristina.

Michelle foi quem vetou e não permitiu que o marido fizesse qualquer aceno que viabilizasse a eleição de Rogéria em 2020. O mesmo veto ocorreu com Ana Cristina que, nas eleições de 2018 (Deputada Federal), concorreu a uma vaga na Câmara dos Deputados pelo estado do Rio de Janeiro, filiada ao partido Podemos. Ela utilizou o nome de urna "Cristina Bolsonaro" e obteve 4.555 votos, ficando de fora. Qualquer aceno de apoio de Jair à ex-esposa causaria um terremoto na família. Nas eleições de 2022, a mãe de Renan transferiu seu domicílio eleitoral e disputou uma vaga na Câmara Legislativa do Distrito Federal (DF), desta vez pelo Progressistas (PP). Registrada novamente como "Cristina Bolsonaro", ela conquistou apenas 1.485 votos e amargou nova derrota. O veto de Michelle, já como primeira-dama do país, foi explícito. Ela nunca permitiu que as suas antecessoras conseguissem algum protagonismo político.

A campanha de 2022 foi marcada por forte tensão familiar. Ana Cristina concorreu ao cargo sem o apoio oficial do clã e disputou diretamente o eleitorado com o irmão de Michelle Bolsonaro, Eduardo Torres, que concorria ao mesmo cargo. Na ocasião, a ex-primeira-dama foi a público nas redes sociais declarar que seu irmão era o "candidato oficial da família", isolando politicamente a mãe de Jair Renan no pleito. O apoio não funcionou. O irmão de Michelle, sem o sobrenome Bolsonaro, ficou na terceira suplência do PL. O 1º Suplente foi Reginaldo Sardinha (PL) - 20.107 votos; o 2º Suplente: o ex-diretor do Senado por 14 anos, Agaciel Maia (PL) - 17.693 votos; e finalmente o 3º Suplente: Eduardo Torres (PL) - 16.990 votos.

O "pecado de Flávio foi contrariar Michelle dando protagonismo político à mãe" 

Agora em 2026 é possível compreender o comportamento irracional de Michelle com o enteado. Ao colocar Rogéria com chances de obter uma vaga de senadora, ele traz a mãe de volta à ribalta política. No Senado (ela pode assumir com uma licença de Canella, para ser ministro de Flávio, por exemplo) ela será a mãe do Presidente da República e não uma ex de Jair. A ironia é que Michelle pretendia ser senadora pelo Distrito Federal, sonho momentaneamente abortado pelo conflito aberto com o vídeo.

Para um amigo da família, que já foi alvo da ira de Michelle, "só o fator passional explica a irracionalidade política das últimas posições de Michelle". Ele complementa: "o grande pecado de Flávio foi ressuscitar politicamente Rogéria".

As diferenças de Michelle Bolsonaro de Rogéria e Ana Cristina são só os quatro anos de visibilidade como primeira-dama e o protagonismo que conquistou com o segmento evangélico. As trajetórias de Ana Cristina Siqueira Valle e Michelle de Paula Firmo Reinaldo em direção a Jair Bolsonaro seguiram um padrão idêntico de aproximação profissional, geográfica e hierárquica dentro da Câmara dos Deputados. As principais semelhanças e a única grande diferença estrutural entre as duas dinâmicas revelam como o ambiente legislativo de Brasília moldou a vida pessoal do ex-presidente.

Ambas já circulavam nos corredores do Congresso antes do envolvimento amoroso. Eram jovens inseridas no ecossistema político de Brasília através de cargos de confiança. Ana Cristina entrou na órbita de Bolsonaro no final dos anos 1990 enquanto trabalhava como assessora do deputado federal baiano Jonival Lucas. Michelle repetiu exatamente o mesmo roteiro em 2007, atuando como secretária parlamentar na liderança do Partido Progressista (PP) e no gabinete do deputado Marco Aurélio Ubiali. Nos dois casos, o interesse pessoal de Jair Bolsonaro se materializou primeiro por meio de uma oferta de emprego. Ele convidou ambas para migrarem de seus respectivos setores para trabalhar diretamente sob o seu comando.

Tanto Ana Cristina quanto Michelle tornaram-se funcionárias subordinadas ao próprio Bolsonaro em seu gabinete de deputado federal antes de formalizarem os relacionamentos. O padrão de escolha também se repetiu no aspecto etário. Quando iniciaram as relações, Bolsonaro tinha uma diferença de idade superior a duas décadas em relação a ambas. Ana Cristina tinha 20 e poucos anos (Bolsonaro na faixa dos 40); Michelle tinha 25 anos quando o conheceu (Bolsonaro tinha 52).

Ambas as aproximações provocaram transições familiares imediatas. Para ficar com Ana Cristina em 1997, Bolsonaro rompeu definitivamente seu primeiro casamento com Rogéria. Para se casar com Michelle no civil em novembro de 2007, o processo foi ainda mais fulminante, ocorrendo poucos meses após o primeiro contato no gabinete. Vejam a coincidência dos padrões: 97 e 2007. Sempre o 7. O próximo ano é também 7 (2027). "A situação de Michelle pode se agravar com o desgaste político que ela está causando ao candidato da família. Sem o aval de Jair, o futuro das ex-esposas é pífio. É só ver as tentativas frustradas de Rogéria e Ana Cristina em voos solos ", avalia um observador privilegiado da família.

A onda de suspeição com a festa do astronauta foi o 'suicídio' político de Michelle

O que azedou a situação de Michelle foi dar protagonismo ao vídeo do ex-governador Anthony Garotinho sobre a festa do astronauta de Daniel Vorcaro, insinuando uma nuvem de suspeição sobre Flávio Bolsonaro. O senador nem estava em Nova Iorque na data. Ao criar uma fake news, a base de suspeição, ela usou um dos mais sórdidos instrumentos de destruição de reputação. Esta linha criou feridas que dificilmente cicatrizarão no seio familiar. Na prática, ela cometeu suicídio político e familiar.