Coluna Magnavita | Barbada bilionária: cada um dos 4,8 mil sócios do Jockey recebeu presente de R$ 354 mil da prefeitura do Rio

Por Claudio Magnavita

Jockey Club Brasileiro, na Gávea

A notícia da estranha operação imobiliária realizada pela Prefeitura do Rio dois dias antes da saída do então prefeito Eduardo Paes, que envolveu a redução de uma dívida de R$ 2 bilhões do Jockey Club Brasileiro que estava em fase de execução final e foi liquidada com a entrega da sede do clube no centro pelo valor de apenas R$ 240milhões, publicada pela coluna Magnavita, viralizou nas redes sociais. Apesar do negócio ter saído no site da prefeitura e do próprio Jockey, a notícia despertou interesse porque foi omitido pelas partes o valor original da dívida, que era de R$ 1.990.238.886,57.

O anúncio foi feito sem explicar que a Prefeitura abria mão de R$ 1,7 bilhão e que o imóvel recebido estava sendo supervalorizado.

O prefeito Eduardo Cavaliere correu para explicar e se complicou ainda mais ao afirmar ao site Agenda do Poder, que também publicou a notícia. Afirmou Cavaliere: "Não houve favorecimento, nada foi feito às escondidas. O objetivo foi mesmo salvar o Jockey e o Centro do Rio e isso foi anunciado publicamente. Não houve qualquer movimento que não tivesse a mais completa transparência. Dentro dos limites legais, encontramos uma saída para preservar o clube, que tem um papel emblemático e histórico na vida da cidade".

Além de não haver transparência completa, já que a redução do valor da dívida bilionária nunca foi divulgada, o prefeito afirma que "encontrou uma saída para preservar o clube, que tem um papel emblemático e histórico na vida da cidade". Só que omite que se trata de um ente privado, no qual funciona como casa de apostas. Aliás, o motivo desta primeira dívida é a cobrança de impostos sobre o jogo. Toda a área do clube e parte social é de acesso restrito aos seus 5 mil associados.

O Jockey Club, que recebeu toda essa filantropia alardeada pelo prefeito, é um clube da elite carioca, com 4.800 sócios pagantes e com os sobrenomes mais famosos da cidade. A conta é simples: o desconto da dívida que estava em execução foi de R$ 1,7 bilhão. Dividida pelos 4.800 sócios ativos, o benefício da Prefeitura foi de R$ 354.166,66para cada um. É mais do que um apartamento top do programa Minha Casa, Minha Vida dado de graça para cada um dos felizardos associados. Como eles são da elite carioca, deve ser normal para o nosso alcaide que eles mereçam tal benesse, ainda mais por serem proletários da área urbana mais valorizada da cidade: o terreno da Gávea.

A Prefeitura de Cavaliere deveria estender este programa de salvamento a outros clubes. Na certa, o Iate Clube do Rio, por ser também da elite, estaria em primeiro lugar. Outras, como o Helênico Atlético Clube, no Rio Comprido, tradicional clube de futsal, que chegou a uma situação crítica, com dívidas milionárias acumuladas que levaram a sede a ser colocada em leilão judicial para o pagamento de credores, ou ainda o Iate Clube Guanabara, na Ilha do Governador, com dívidas fiscais parceladas, teriam dificuldades de receber igual carinho.

A corrida de cavalos sempre foi o mais viciante dos jogos e milagrosamente sobreviveu (até pela proteção da elite) ao fechamento dos cassinos. É um jogo que destruiu famílias, torrou patrimônios e que se perpetua com glamour. É essa a essência da jogatina de um Jockey Club e que, agora, recebe um afago amoroso e generoso da Prefeitura do Rio em um negócio mal explicado, indefensável e que envolve os sobrenomes mais famosos da elite da cidade. O desconto bilionário, reduzindo o valor da dívida, também não exigiu nenhuma contrapartida à população do Rio, como a abertura das catracas do clube para uso da população nos finais de semana, escolinhas, cursos e outras ações sociais e comunitárias. Foi um grande negócio imobiliário que liberou toda a área da sede da Gávea de uma penhora jurídica, colocando-a livre para negócios imobiliários, que poderão ocorrer agora para quitação da outra dívida do clube com a Prefeitura, a de IPTU. Já existem fundos imobiliários mapeando as áreas do clube para negócios visando amortizar este passivo, que beira a R$ 400milhões. Não falta terreno para este encontro de contas.