O Rio é o fiel da balança para a reeleição de Lula em 2026
Estado é o único grande colégio eleitoral no qual o PT poderá compensar o encolhimento de votos do Nordeste
Estado é o único grande colégio eleitoral no qual o PT poderá compensar o encolhimento de votos do Nordeste
Eleição é matemática pura aplicada. Ganha quem tiver mais votos. É por isso que a virada de ano foi um período de fazer contas — muitas contas —, tanto na direita, quanto na turma da esquerda.
Alguns resultados que vazaram da turma que faz equação da rejeição de Lula colocam o estado do Rio de Janeiro no epicentro do terremoto que os protagonismos de 2026 provocam.
É o único grande colégio eleitoral que está aberto e com eleitores suficientes para compensar os votos que a esquerda aposta perder no Nordeste, região que deu a vitória petista em 2022.
Na última eleição, a margem de 1,8 ponto percentual foi a menor diferença registrada em uma eleição presidencial desde a redemocratização do Brasil. Só para relembrar, Lula teve 60.345.999 votos (50,90% dos votos válidos) e Jair Bolsonaro 58.206.354 votos (49,10% dos votos válidos).
Os 22.534.967 votos (69,34% dos votos válidos da região) de Lula contra os 9.962.917 votos (30,66% dos votos válidos) de Bolsonaro, compensaram a vitória do presidente que tentava a reeleição nas demais regiões.
Só que a realidade nordestina será diferente em 2026. Na Bahia, ACM Neto vai corroer os votos da esquerda, já desgastados por longos anos de poder e sucessivos escândalos. No Rio Grande do Norte, o senador Rogério Marinho se consolida no eleitorado e Fátima Bezerra não construiu um sucessor; no Ceará, a presença da candidatura de Ciro Gomes voltando às origens estaduais faz um rombo no casco lulista e do ministro Camilo Santana.
É neste cenário que entra o Rio. Nas eleições presidenciais de 2022, Jair Bolsonaro (PL) venceu tanto no estado quanto na cidade do Rio de Janeiro no segundo turno. Bolsonaro teve 56,53% (5.367.230 votos válidos) e Lula: 43,47% (4.127.311 votos válidos). Ele venceu em 72 dos 92 municípios fluminenses.
A diferença na capital foi de 195.050 votos (5,32%). Lula venceu em bairros como Laranjeiras e em partes da Zona Sul, enquanto Bolsonaro manteve forte domínio na Zona Oeste e em áreas suburbanas.
A eleição do Rio ainda é um jogo que está sendo jogado. No cenário de hoje, é o único grande colégio eleitoral, fora do Nordeste, que um candidato a governador aparentemente pro-lulista é o preferido nas pesquisas. Ao contrário de outros prefeitos de capitais que disputaram o Governo do Estado, como João Campos no Recife, ele não consegue passar dos 37% de intenção de votos nas pesquisas, contra um Campos com índices acima de 52%.
Eduardo Paes é confiável?
O cenário de Eduardo Paes tem outro componente: ele é o único candidato competitivo na disputa. Na prática, está concorrendo sozinho e não consegue passar dos 37%. Para ser eleito, Paes precisa dos votos da direita. A grande questão que atormenta as cabeças coroadas da esquerda em Brasília: o que ocorrerá com Lula se ele fizer corpo mole? Ou pior, se ele se mantiver dentro da fidelidade partidária e apoiar a candidatura de Ratinho Junior, que ganha cada dia mais corpo com o empenho de Gilberto Kassab.
Nenhum outro grande colégio eleitoral está tão solto.
A rejeição de Flávio no Rio
A candidatura de Flávio Bolsonaro não empolga o Rio. O eleitor fluminense conhece de perto o senador e a sua rejeição por aqui é enorme. Flávio teria de se reinventar no Rio e trocar seus velhos interlocutores, que só lhe trarão problemas. A sua opção de morar em Brasília o deixou longe da política fluminense. Ele ficou em uma bolha e cercado por prepostos problemas. Nas pesquisas feitas antes do anúncio da sua escalada presidencial, ele já desidratava como candidato ao Senado. Flávio sempre foi coadjuvante do papel do seu pai no Rio. Esta falta de protagonismo anterior lhe custa caro agora.
O candidato de Kassab
O governador do Paraná, Ratinho Junior, é visto como a principal alternativa caso a candidatura de Tarcísio de Freitas não se concretize. Sua força reside na sua baixa rejeição. Bem diferente de nomes mais ligados ao bolsonarismo radical, ele possui menor rejeição, inclusive entre o público feminino. É considerado um político moderado com trânsito facilitado nas classes C e D e boa relação com o setor empresarial. Representa um nome competitivo que pode atrair eleitores que desejam uma alternativa ao governo Lula, sem a polarização extrema.
A viabilidade de Ratinho Junior está diretamente ligada ao PSD, presidido por Gilberto Kassab, que tem incentivado sua pré-candidatura para garantir protagonismo ao partido. É o mesmo partido de Eduardo Paes. A escolha de Flávio turbinou a presença de Ratinho Júnior no primeiro turno.
O PSD trabalha para liderar um bloco de centro-direita e, em 2025, o governador intensificou agendas fora do Paraná para testar sua popularidade nacional, atingindo entre 10% e 14% em pesquisas de intenção de voto. Não se pode falar em Ratinho sem incluir o futuro de Eduardo Paes nesta equação.
Sinuca de bico paulista
Para fechar essa equação de matemática aplicada das cabeças coroadas do PT, é necessário focar na realidade de São Paulo. Enfrentar uma máquina que buscará a reeleição, deslocar Fernando Haddad para uma candidatura ao Senado e colocar Geraldo Alckmin para disputar o Bandeirantes desarruma a cabeça da chapa da reeleição. Quem terá o papel de avalista de Lula neste jogo junto ao eleitor mais do centro? Com a sinuca de bico paulista, só restará o Rio como fiel da balança. Sem diminuir a diferença que Bolsonaro teve na eleição passada com os eleitores fluminense, Lula não ganha em 2026.
A reinvenção do PT Fluminense
Para os generais lulistas, quem precisa ser reinventado é o PT do Rio. Ele é um caso único no país, com brigas fratricidas. Um dirigente nacional, perdendo a paciência, afirmou: "o ideal no Rio era uma bomba. Acabar com todo mundo e reconstruir do zero". É tido pela nacional como um caso perdido. Porém, o cenário do Rio como fiel da balança de uma eleição presidencial assusta. A rearrumação da casa é obrigatória.
Lula tem dado cada vez mais ouvido a ideia de uma candidatura própria para o Governo do Rio. Mesmo que seja para perder o Guanabara, mas compensar os votos que faltarão no Nordeste. Ele é o único que pode colocar ordem na casa e por André Ceciliano e Quaquá na mesma canoa, sem que ela vire.
*Diretor de redação do Correio da Manhã
