Enquanto a semana fazia uma pausa nos bastidores políticos com o duplo feriadão (15 e 20 de novembro), acontecia, na sede da Cesgranrio, um dos mais relevantes atos de cidadania que ocorreram no Rio nos últimos anos. A Academia Brasileira de Cultura (ABC) deu uma guinada na emocionante posse dos 13 novos acadêmicos, realizada no último 14 de novembro, consolidando sua posição no cenário nacional.
Encarnou o papel de palco da diversidade e encontrou o seu papel de validador de talentos, independentes de credos, raça, gênero, idade e ideologia. A ABC se tornou o grande templo da diversidade e trouxe a legitimidade que muitos questionaram na sua primeira fase. Acertou o professor Carlos Alberto Serpa, presidente e idealizador da Academia, e o diretor Leandro Bellini, o curador da cerimônia de posse que arrancou aplausos e lágrimas, fazendo o relógio parar e transformando a densa solenidade em uma ode ao reconhecimento e à imortalidade do talento.
Os ritos acadêmicos: fardão, colar e cerimonial formaram um bálsamo para estes nomes da cultura, um segmento que tem na sua base o sacrifício pessoal, o talento que emerge, a resistência política e perpetuação da arte. Como não se emocionar com as lágrimas de Liniker, em receber as honrarias acadêmicas diante dos seus familiares? No seu discurso, colocou como impossível um momento tão digno para uma artista trans há alguns anos.
Como não se emocionar ao ver o reitor da PUC, o padre jesuíta Anderson Antonio Pedroso, que segue a mesma cartilha de acolhimento do Papa Francisco, ceder o seu próprio lenço para enxugar as lágrimas de Liniker. Que simbolismo!
Na mesma solenidade, Daniela Mercury fez um dos mais lúcidos discursos da noite. Deixou os olhos de todos mareados.
Assistir a Marrom, Alcione, se tornar imortal e entoar um canto que fez chorar a ministra e conterrânea, Sônia Guajajara, ou ainda Juma Xipaia, com a sua bebê no colo, falar sobre a luta dos povos originários e, principalmente, da luta das mulheres indígenas. O simbolismo do rito acadêmico atingiu o ápice nesta posse coletiva que legitimou a Academia Brasileira de Cultura como a casa de um Brasil de acolhimento, sem preconceito e sem divisões.
Como não se emocionar com o reconhecimento ao novo acadêmico José Luís Ribeiro, o diretor e ator de Juiz de Fora, que fez do teatro o instrumento de inclusão. Homenagem que ocorre exatamente aos 60 anos de sua carreira. Para ele, essa imortalidade e reconhecimento é o coroamento de uma vida de luta. Nada mais generoso e legítimo.
Reconhecimento ao novo imortal Antenor José de Oliveira Neto, o novo acadêmico que cuida da rede de teatros do Sesc/Firjan e reconhece o papel do presidente Eduardo Eugênio Gouvêa Vieira na cultura fluminense.
Fundamental o discurso de Arnaldo Niskier, em se colocar como elo de ligação da ABL e ABC, por considerar haver grandes sinergias entre as duas casas.
A ABC vai iniciar uma coluna semanal no Correio da Manhã, com textos em rodízio dos acadêmicos. Uma contribuição que fortalece o papel do Correio em editar um maior espaço dedicado às artes e à cultura com o seu segundo caderno. Um apoio cultural da nossa editora desde o retorno do jornal. Fundador da ABC, Carlos Alberto Serpa, como o grande mecenas da cultura do Rio, plantou uma semente que agora germinou. A Academia de Cultura é motivo de orgulho!