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A terapia vacilante no novo filme com Darín

O psicanalista faria Freud engolir o charuto — aceso —, tamanhas barbaridades que comete para, na melhor intenções, mudar o destino de pessoas que não saem do dois pra lá, dois pra cá

Por Fernando Molica

Peretti e Darín, paciente e analista: relação mostrada no filme

Parafraseando o grande Luis Fernando Verissimo: cinema numa hora dessas? Pois é, não tem jeito, é preciso fazer algum esforço para tratar de temas que não sejam limitados pela disputa eleitoral.

O filme argentino "A terapia certa", disponível na Netflix, é um pretexto para tentar mudar de assunto, ainda mais em um Brasil que precisaria ser colocado no divã e que tem dificuldades de enfrentar e contar a própria história.

Dirigido por Hernán Goldfrid e estrelado por Ricardo Darín e Diego Peretti, o longa-metragem parte de uma sacada original: um famoso psicanalista, Ulises Verón, revolta-se com o tratamento convencional oferecido aos pacientes e resolve passar a interferir diretamente na vida deles.

Interpretado por Darín, o sujeito faria Sigmund Freud engolir o charuto — aceso —, tamanhas barbaridades que comete para, na melhor intenções, mudar o destino de pessoas que não saem do dois pra lá, dois pra cá em suas existências. E, claro, provoca uma série de problemas.

O filme se fixa no caso de um escritor famoso, Martín Domenech (Peretti), que procura o psicanalista em meio a uma angústia criativa: não consegue escrever nada interessante. Isto, mesmo recorrendo ao método proposto por Ernest Hemingway e que ele adotada fazia muito tempo: escrever bêbado e revisar sóbrio.

De tanto encher a cara e manter vazio seu computador, Domenech conseguia apenas aprofundar sua dependência ao álcool. Foi então pedir ajuda ao psicanalista que lhe parecia ser o melhor disponível num país que, como Ulises frisa no início do filme, é recordista na quantidade desses profissionais.

A sacada, ótima, permite situações dramáticas e engraçadas. O problema é que o roteiro parece ter passado pela mesma crise do angustiado Ulises, sabia de onde queria sair, mas desconhecia o caminho a ser percorrido e o destino final. E aqui vem aquela história de Mallarmé, a de que bons poemas não são feitos com ideias, mas com palavras; no caso de um filme, com imagens e diálogos.

"A terapia certa" padece da incapacidade de resolver o problema causado pelo psicanalista — não basta queimar o divã, é preciso saber o que colocar em seu lugar, e é aí que Ulises e o filme se atrapalham.

Em seu terço final, o longa ensaia algumas alternativas capazes de propor um desfecho, como em uma sequência de tentativa e erro, saídas que geram no espectador a ilusão de uma possibilidade de desfecho.

Mas, como Ulises, o roteiro acaba repetindo as trajetórias de um brinquedo comum em parques de diversões antigos, chamado de bate-bate; a graça estava em jogar aqueles carros elétricos protegidos por uma cinta de borracha uns contra os outros.

Sem saída, o filme recorre a soluções forçadas, mágicas, inverossímeis, que ora condenam atitudes do psicanalista, ora as absolvem. Pra piorar, recorre a um velho chavão, no caso, relacionado ao livro que o angustiado Domenech consegue, enfim, publicar.

Espécie de versão argentina e masculina de nossa Fernanda Montenegro — por seu talento, carisma e posicionamentos —, Darín se esforça para salvar o filme, mas não consegue impedir a frustração de quem esperava uma história capaz de entregar a expectativa gerada. Fica a sensação de que o público é que acaba sendo induzido a dar um salto no abismo.