A estratégia do medo e a Quaest
Para o candidato à reeleição, mais importante que a oscilação negativa de um ponto de Flávio Bolsonaro (PL) foi a queda de sua própria rejeição.
A julgar por detalhes da pesquisa Quaest divulgada ontem, o medo representado pela eventual eleição de Flávio Bolsonaro (PL), tão ressaltada nos últimos dias pela campanha de Lula (PT), parece ameaçar a alegação de mudança pregada pelo senador fluminense.
A pequena, mas significativa oscilação na diferença entre os dois candidatos — caiu de dois pontos para um, com Flávio ainda numericamente à frente —, ocorreu não devido a uma crescimento do petista (que manteve seus 44 pontos), mas graças a uma queda do bolsonarista (de 46 para 45).
Para o candidato à reeleição, mais importante que a oscilação negativa de Flávio Bolsonaro (PL) foi a diminuição de sua própria rejeição. Há uma semana, 53% não admitiam votar no petista percentual que caiu para 47%, uma queda de seis pontos. O indíce dos que não aceitam o senador também ficou menor, mas numa intensidade inferior, de 54% para 52%.
Semana passada havia um empate técnico nesse quesito: 54% rejeitavam Flávio; 53%, Lula. Na pesquisa de ontem, este placar negativo mudou para 52% a 47%, uma diferença de cinco pontos percentuais favorável ao petista.
Antes o índice dos que temiam a volta da família Bolsonaro ao Planalto era igual ao dos que tinham o mesmo sentimento em relação à permanência do petista: 43% nos dois casos. Agora, o temor em relação ao retorno do clã é superior, 44% a 42%
Uma análise mais cuidadosa da pesquisa revela que a campanha do atual presidente parece ter acertado ao procurar descontruir a imagem do adversário. Entre eleitores com nível universitário, a preferência por Flávio caiu de 50% para 47%, a opção por Lula subiu de 40% para 46%. A diferença, antes de dez pontos, desabou para um ponto.
Discretas, mas importantes mudanças foram verificadas no tema religião. Flávio continua nadando de braçada entre os evangélicos, mas sua vantagem no segmento caiu de 32 para 28 pontos, uma oscilação negativa dentro da margem de erro para este tipo de contabilização. Entre os católicos, a vantagem petista subiu de seis pontos (49% a 43%) para dez (50% a 40%).
Um pequeno detalhe indica a possibilidade de efeito positivo da campanha lulista direcionada a eleitores de uma direita não bolsonarista, mais moderada: entre estes, a vantagem de Flávio continua imensa, mas caiu dez pontos: o placar era de 94% a 3%, mudou para 89% a 8%. Para efeito de comparação: na esquerda não lulista, a vantagem do petista, que era de 91% a 5%, caiu apenas um ponto.
A pesquisa reforça a cara de dois países: o de Flávio é majoritariamente branco (50% a 40%) e mais abonado (50% têm renda acima de cinco salários mínimos, contra 39% dos que preferem Lula). O petista fica com os pretos (50% a 39%) e com os mais pobres (51% a 37% ganham até dois salários mínimos).
A disputa parece se concentrar no eleitorado que não está nas pontas: os que têm ensino médio (52% a 37%, ampla vantagem de Flávio); pardos (46% a 42%, com liderança de Lula); e renda entre dois e cinco salários (48% a 42% pró-candidato do PL). As bondades de Lula dirigidas aos MEIs são focadas nesses cidadãos.