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O comandante Garcez e Lula

A mobilização de estudantes pela candidatura de Lula chega a lembrar as passeatas promovidas, em 1992, em prol do impeachment de Fernando Collor de Mello, também organizadas por entidades estudantis.

Por Fernando Molica

Manifestações contra Collor ocuparam as ruas das maiores cidades brasileiras

As sucessivas manifestações nas ruas e redes sociais ocorridas a partir desta semana indicam que jovens eleitores de Lula (PT) decidiram, por contra própria, promover o que o petista não fez, e trataram de botar seus blocos para desfilar. Cansaram de esperar por um candidato que vinha resistindo às novas formas de fazer campanha e que sequer tem celular.

A mobilização chega a lembrar as passeatas promovidas, em 1992, em prol do impeachment de Fernando Collor de Mello, também organizadas por entidades estudantis. Na época, o presidente deu um gás extra às manifestações ao, em rede nacional de TV, pedir que a população fosse às ruas, no domingo seguinte, de verde e amarelo para apoiá-lo. Muita gente foi, mas vestida de preto, o que praticamente definiu o destino do presidente.

Agora, o estopim veio com a vitória parcial de Flávio Bolsonaro (PL) — estudantes, principalmente os das redes públicas, sabem da escassez de verbas e dos ataques sofridos especialmente pelas universidades durante o governo no pai do candidato. Lembram da balbúrdia no MEC.

Ao ceder a pressões internas, incorporar petistas bons de voto ao comando da campanha e ceder ao apelo por presença no mundo digital, Lula tenta salvar a eleição e, na prática, indica ter percebido ser também responsável pela que classificou de mais desorganizada campanha desde 1989.

Até por sua conhecida postura centralizadora, o petista não poderia ser furtar a reconhecer os erros de fazer uma campanha que foi, em sua maior parte, focada no passado e não no futuro; eleição é tempo de vender sonhos e esperanças. A propaganda petista no primeiro turno apostou em fórmulas como o sempre reeditado encontro com artistas petistas desde criancinhas.

Ao pedir "Menos Janja e mais (Geraldo) Alckmin", a ex-senadora Kátia Abreu resumiu o ser ou não ser enfrentado pelo lulismo, ainda que se arriscando a ganhar a inimizade para sempre do mulher do presidente.

A campanha do PT no segundo turno colocou Lula para apresentar mensagens curtas e impactantes diante da tela do celular e trata de temas concretos, como a possibilidade de cortes, por Flávio Bolsonaro, em programas sociais. Virar o jogo não é fácil, mas Lula tenta afastar o risco de ser visto como o grande timoneiro que levou partidários para a direção equivocada.

(Em 1989, o então responsável pela agenda de Lula foi chamado, nas internas do partido, de Comandante Garcez, referência ao piloto que, semanas antes, causara uma tragédia ao digitar a rota errada em um voo de Marabá para Belém, no Pará. O assessor teria sido responsável por pautar cansativos encontros do petista na véspera e no dia do debate da Globo, aquele que se tornaria célebre. O segundo volume da biografia de Lula escrito por Fernando Morais mostra que o candidato é que foi responsável por alguns dos graves erros. No tal voo, um passageiro chegou a alertar uma comissária que, pela posição do sol, o Boeing seguia na direção errada — ninguém lhe deu ouvidos.)