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'Tesouraço': caso Marina resgatado

A líder ambientalista, que disputava a liderança das pesquisas com a presidente que disputava a reeleição, perderia o segundo lugar para Aécio Neves (PSDB), a quem apoiaria na rodada final - o tucano perderia para a petista.

Por Fernando Molica

Filme da campanha de Dilma associava autonomia do BC ao risco de fome

Divulgado em redes sociais, o vídeo da campanha de Lula que acusa Flávio Bolsonaro de, com seu anunciado "tesouraço", promover cortes em gastos sociais remete ao filme que, em 2014, foi usado na propaganda de Dilma Rousseff contra Marina Silva.

O filme, de 30 segundos, associava a proposta de dar autonomia ao Banco Central, defendida pela então candidata do PSB à Presidência, ao risco da fome. Na medida em que o narrador falava da medida e do aumento de juros que causaria, a comida ia desaparecendo dos pratos de uma família que fazia sua refeição.

Criado pelo marqueteiro João Santana, o comercial foi seguido de outras peças críticas a Marina, que reclamou, recorreu à Justiça Eleitoral e chegou a romper relações com o PT, partido ao qual fora filiada.

A líder ambientalista disputava a liderança das pesquisas com a presidente que disputava a reeleição, mas perderia o segundo lugar para Aécio Neves (PSDB). Marina apoiou o tucano no segundo turno, que acabou derrotado.

Com um minuto de duração, o filme lulista exibe falas em que Flávio fala em "tesouraço", ou seja, cortes em despesas governamentais. Em seguida, mostra notícias publicadas durante o mandato de Jair Bolsonaro que anunciam diminuição de verbas para merenda escolar, combate ao câncer e programas como Farmácia Popular, Mais Médicos e Minha Casa, Minha Vida.

De acordo com a peça publicitária, Flávio quer dar continuidade "ao legado perverso do pai" e cortar "tudo aquilo que o povo reconquistou". A peça tem como principal objetivo desgastar o candidato do PL e frisar para o eleitor que programas criados em governos petistas correm risco. Na avaliação do Planalto, a maior parte da população considera que tais iniciativas são conquistas asseguradas, que não podem ser descontinuadas.

A decisão de trocar o viés da esperança de dias melhores pelo medo de cortes de verbas foi incentivada pelo próprio presidente Lula e discutida na reunião que ele teve, anteontem, com lideranças políticas. Para a campanha petista, é necessário jogar no próprio campo e buscar o apoio de eleitores mais pobres que, no primeiro turno, votaram em outros candidatos ou em Flávio.

O fato de o candidato do PL não ter explicitado onde aplicará suas tesouradas facilitou a tarefa petista. No início de agosto, a economista Daniella Marques, que assessora Flávio, afirmou que ele pretendia fazer um corte equivalente a 1,5% do Produto Interno Bruto, que equivaleria a cerca de R$ 190 bilhões. Ontem, a CNN publicou que haveria uma diminuição abrupta de despesas no valor de R$ 300 bilhões.

Menos de 24 horas depois da vitória de Flávio no primeiro turno, a ida de Santana para a campanha de Lula chegou a ser ventilada. Rompido com os petistas depois de condenado e preso na Lava Jato pelo recebimento ilegal de verbas para a quitação de seus serviços, o publicitário pode até não retornar — mas seu estilo já foi adotado.