A maldade bem-humorada de Zuenir
Elegante na vida e nos textos, Zuenir Ventura nunca deixou de ser repórter, exerceu a função com um olhar carinhoso, solidário e arguto
As muitas homenagens ao jornalista e escritor Zuenir Ventura, que morreu semana passada, são mais do que merecidas. Mas a tristeza relacionada à morte de uma pessoa tão querida e admirada acabou deixando meio de lado outra característica fundamental do colega, seu extremo bom humor.
Em 1993, o Jornal do Brasil mandou dois repórteres — Zuenir e Jorge Antônio Barros — para cobrir a primeira Caravana da Cidadania promovida por Lula, derrotado quatro anos antes na disputa pela Presidência da República.
A viagem de ônibus buscava reconstituir o trajeto que o menino Luiz, os irmãos e a mãe haviam feito décadas antes, entre Pernambuco e São Paulo. A peregrinação era apresentada como uma redescoberta do Brasil e procurava lançar as bases para a nova candidatura do petista ao Planalto, no ano seguinte.
Os organizadores da jornada determinaram que haveria dois ônibus: um para Lula e seus assessores e correligionários, outro para repórteres, que viajavam às custas das empresas em que trabalhavam.
Passados alguns dias de viagem, quando a comitiva estava em território baiano, o então senador Eduardo Suplicy (PT-SP) conseguiu se enfiar no ônibus dos jornalistas e, de microfone em punho, tratou de, por mais de duas horas, detalhar — de seu jeito, tim-tim por tim-tim — seu programa de renda mínima.
Suplicy, já então conhecido por sua insistência e por sua capacidade de falar horas a fio sobre o tema, conseguiu assim um feito inédito: garantir os ouvidos de dezenas de jornalistas para o plano que se transformara em sua obsessão e que, justiça lhe seja feita, serviria de uma das fontes de inspiração para o Bolsa Família. Na parada seguinte, para alívio dos repórteres, o senador voltou para seu ônibus.
No início da noite, a caravana chegou a Cachoeira, belíssima cidade do Recôncavo banhada pelo Rio Paraguaçu. Depois do jantar, num hotel que ocupava um antigo convento, os mais do que esgotados jornalistas e integrantes da comitiva foram tomar uma cerveja às margens do rio, conversar, jogar conversa fora.
E foi lá que, com aquele jeitão de mineiro convertido em parte ao carioquismo, de avô do Menino Maluquinho de seu conterrâneo Ziraldo, que Zuenir cometeu um dos seus maiores e mais divertidos pecados. Foi até Suplicy, apontou para Barros, seu colega de redação, e, como a cara mais inocente do mundo fez um pedido ao parlamentar:
— Senador, o Jorginho, meu colega, aquele jovem jornalista ali, não entendeu alguns pontos de seu plano de renda mínima. O senhor se importaria de conversar rapidamente com ele, tirar suas dúvidas?
Suplicy aceitou com um largo sorriso e caminhou na direção do apavorado repórter, que não teve como escapar da armadilha preparada por Zuenir. Este, por sua vez, não parava de rir, ar de quem fizera uma travessura — meninas e meninos, eu vi.
Elegante na vida e nos textos, Zuenir nunca deixou de ser repórter, exerceu a função com um olhar carinhoso, solidário e arguto. Naquela mesma viagem, deixou uns dias a caravana de lado para fazer matéria em Monte Santo, antigo centro de peregrinação e cenário de "Deus e o diabo na terra do sol", de Glauber Rocha.
Seus livros ressaltam um jeito original de ver o mundo: transformou o ano de 1968 em personagem, diagnosticou a profunda divisão do Rio, contou da Amazônia de Chico Mendes; evidenciou, como jornalista, que suas histórias eram as dos outros. Todos os livros dariam ótimos enredos.