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Flávio e o canto dos galos

Pelo jeito, Flávio Bolsonaro confiou demais que os dados mais comprometedores continuariam a ser protegidos pelo mesmo sigilo que sonegou à sociedade a informação de que ele, de julho, vinha sendo investigado pela Polícia Federal.

Por Fernando Molica

Flávio Bolsonaro havia negado voo em jatinho de Vorcaro

Antes mesmo que Daniel Vorcaro começasse a cantar em uma cada vez mais improvável delação premiada, o senador Flávio Bolsonaro o negou, pelo menos, três vezes.

Ontem, outra versão do senador foi obrigada a fazer pouso forçado, a de ele jamais viajara em jatinho do ex-banqueiro. A revista piauí mostrou que ele, assim como o ministro Alexandre de Moraes, voou nas asas do então dono do Master.

Ao longo deste ano, Flávio negou que tivesse tido qualquer contato com aquele que, em mensagens, chamara de "mermão", classificou de mentirosa a afirmação de que pedira dinheiro ao banqueiro para bancar um filme sobre seu pai, declarou que a última parcela relativa ao suposto financiamento tinha sido paga em maio de 2025 (foi em setembro).

Diferentemente do que prometeu, até agora não foi revelado um detalhamento das despesas relacionadas a "Dark Horse". Uma nova troca de mensagens revelada pelo jornal O Estado de S. Paulo mostra também que os contatos imediatos entre os dois personagens foram muito maiores — o político tentou falar com o corruptor-geral da República nos quatro dias que antecederam a prisão deste.

Em uma das mensagens enviadas a Vorcaro, prometeu que estaria sempre com ele, enfatizou que não havia meia conversa entre os dois, e que precisava de "uma luz".

A lista de inverdades será ainda maior se confirmada a hipótese de que dinheiro público materializado em emendas parlamentares foi utilizado para abastecer a cocheira que abrigou a, em tese, mais cara produção do cinema brasileiro.

Falar a verdade é uma exceção no universo da política brasileira. Seria até injusto exigir apenas de Flávio Bolsonaro um compromisso com um relato fiel dos fatos, principalmente com aqueles capazes de comprometê-lo.

O problema é que desde março, quando seu número de telefone apareceu na agenda de Vorcaro, o candidato do PL não economiza na hora em apresentar informações que, posteriormente, revelam-se falsas.

Como protagonista de fatos ligados ao ex-banqueiro, o primogênito de Jair Bolsonaro deveria, pelo menos, ter pensado em divulgar versões amenizadas dos episódios; poderia até ter antecipado e retirado algum de peso de revelações.

Pelo jeito, confiou que os dados mais comprometedores continuariam a ser protegidos pelo mesmo sigilo que sonegou à sociedade a informação de que ele, desde julho, vinha sendo investigado pela Polícia Federal.

Flávio agora corre agora o risco de cair no inferno por ter buscado luz com Vorcaro. O grau de polarização na política brasileira e a sucessão de publicações comprometedoras em relação aos candidatos não permite dizer que o conjunto de fatos agora revelados será fatal para o projeto presidencial do senador.

Mas, parafraseando Toninho Geraes e Paulinho Rezende, tem potencial de dar um novo tom para o galo petista — este sim — cantar mais alto.