Voto útil e o risco de Lula
Com base no caráter plebiscitário que tem marcado as eleições presidenciais, o petista apostou pesado em uma vitória no primeiro turno - para ganhar de cara, um candidato precisa ter, pelo menos, um voto a mais que a soma dos adversários.
O eventual voto útil em Flávio Bolsonaro (PL) coloca em xeque a estratégia do presidente Lula de insistir para que sua candidatura à reeleição fosse a única de partidos com alguma representatividade no campo da esquerda e centro-esquerda, PSB, PDT e Psol/Rede (PCdoB e PV fazem parte da mesma federação do PT).
Com base no caráter plebiscitário que tem marcado as eleições presidenciais, o petista apostou pesado em uma vitória no primeiro turno — para ganhar de cara, um candidato precisa ter, pelo menos, um voto a mais que a soma dos adversários. Assim, qualquer outro nome do campo progressista poderia colaborar para o adiamento do triunfo.
A imposição por Jair Bolsonaro de seu primogênito como candidato parecia confirmar o acerto da decisão lulista, que passou a contar com a rejeição ao clã para sair vitorioso no 4 de outubro.
Mas o presidente tem rejeição semelhante à do seu principal opositor, que conta com maior afinidade ideológica com os demais candidatos ao Planalto: todos, com diferentes gradações, estão do lado direito do espectro político.
Isso, porém, não quer dizer que quase todos os votos de Augusto Cury, Renan Santos, Ronaldo Caiado e Romeu Zema irão para Flávio Bolsonaro de maneira automática. Apesar de toda a radicalização ocorrida nos últimos anos, há outras questões levadas em conta pelo eleitor para definir seu voto, razões que não se limitam aos conceitos de esquerda e direita.
Pesquisas indicam que entre os cidadãos que, no primeiro turno, optarem pelos tais quatro candidatos, a parcela dos dispostos a migrar para Flávio é bem maior do que a disposta a apoiar Lula.
Como eleição é algo dinâmico, o presidente teria, neste caso, três semanas para convencer parte desses eleitores. O problema, para ele, é se um grande percentual dos simpatizantes de Cury, Renan, Caiado e Zema atenderem ao apelo da campanha do PL e resolverem, desde já, votarem em Flávio.
A tendência de esvaziamento das quatro candidaturas foi detectada pela pesquisa AtlasIntel divulgada ontem: em relação à anterior, a soma das intenções de voto no grupo caiu 2,6 pontos percentuais, de 11,4% para 8,8%. A eventual comprovação dessa tendência tem o potencial de complicar a vida do petista, até porque os apelos ao chamado voto útil tendem a aumentar nos próximos dez dias. Em tese, uma antecipação de voto no petista seria menos provável.
Em 2022, a última pesquisa Datafolha publicada antes do primeiro turno apontava que os candidatos do segundo escalão tinham 13% das intenções de voto: eles receberam 8,37%. Há eleitores que encaram as urnas como um jogo, que não aceitam "perder voto".
A abstenção, que tende a se concentrar entre cidadãos mais pobres, também impacta no resultado, ainda mais quando pesquisas dão grande vantagem ao petista neste grupo. Lula, que começou a campanha mirando uma vitória antecipada, agora tem que se preocupar com o risco de desastre.