A seletividade de Mendonça

Chega a ser assustador concluir que, dos dez integrantes do principal tribunal brasileiro, cinco - a metade - sejam suspeitos de relações indevidas com o Master.

Por Fernando Molica

Ministro André Mendonça, na sessão de ontem do STF

Notícias publicadas manhã de ontem e dados revelados no Supremo Tribunal Federal apontam para uma atuação parcial do ministro André Mendonça. Diferentemente do que fez em relação a Alexandre de Moraes — suspeito de graves irregularidades — Mendonça não havia divulgado informações sobre supostas relações impróprias de Daniel Vorcaro com outros ministros do STF ou com parentes destes.

A lista inclui Dias Toffoli, Kássio Nunes Marques e Luiz Fux. Os episódios só vieram à tona depois da entrega a outros ministros, na noite de segunda, de informações que vinham sendo mantidas em sigilo por Mendonça.

Também ontem, o ministro Flávio Dino solicitou investigação sobre Mendonça. Lembrou que o encontro do colega com Vorcaro, em março do ano passado, ocorreu no dia seguinte ao início de votação, no STF, de processo que tratava da concessão de serviços funerários em São Paulo, tema que era de interesse do Master.

Quando o tema foi retomado, o ministro — segundo Dino, que relatou o caso — votou de acordo com os interesses de empresas concessionárias. Em setembro, o Iter, instituto fundado por Mendonça, assinou com a prefeitura contrato, sem licitação, no valor de R$ 380 mil. No último dia 3, Mendonça anunciou seu afastamento da instituição.

As suspeitas que recaem sobre quatro outros ministros do STF em nada amenizam o caso de Moraes, o contrato de R$ 131 milhões assinado pelo Master com o escritório de Viviane Barci de Moraes, mulher do ministro, é, por si só, escandaloso.

Ontem, Moraes negou que tenha mantido conversas comprometedoras com Vorcano, o que caminha na direção oposta das apurações feitas pela Polícia Federal. Segundo o ministro, as mensagens encontradas no celular do ex-banqueiro não provam a existência de um diálogo com ele.

A versão apresentada por Moraes ressalta a necessidade de ele ser investigado, seu celular e seus computadores precisam ser revirados. Mas não seria razoável deixar de fora ministros igualmente suspeitos de receberem favores do banqueiro. Chega a ser assustador ver que, dos dez integrantes do STF, cinco — a metade — sejam suspeitos.

Não vale estabelecer uma hierarquia entre os casos, o de Moraes veio à tona antes dos demais por uma decisão do próprio Mendonça. Foi ele, no último dia 24, a pouco mais de um mês da eleição, que determinou à Polícia Federal a realização de um apanhado de investigações que, sabia, iriam chegar a Moraes. Ele não poderia desconhecer algo que era de domínio público desde março.

Ao destacar o caso de Moraes e, pelo visto, deixar de lado os que envolviam outros colegas, Mendonça abriu margem para a acusação de ter agido movido por interesses eleitorais. Indicado para o STF por Jair Bolsonaro e até hoje próximo do clã, Mendonça não poderia ignorar que a exposição do ex-relator dos processos contra golpistas seria capaz de prejudicar a candidatura do presidente Lula à reeleição.

Terrivelmente evangélico, o ministro parece não ter levado fé na capacidade de reação de colegas; depois de apontar o dedo para Moraes, é obrigado a encarar indicadores em sua direção.