Dino pôs fogo na cocheira

As informações recolhidas pela PF indicam o porquê de a Go Up Entertainment não ter sequer tentado usar leis de incentivo para a produção de "Dark Horse" - a produtora seria incapaz de atender as muitas exigências necessárias ao uso de tais mecanismos.

Por Fernando Molica

Ministro do STF determinou operação contra produtora de "Dark Horse"

Ministro do Supremo Tribunal Federal com larga experiência política, Flávio Dino foi o responsável por dois contra-ataques à ofensiva jurídica, com evidente viés político, deflagrada pelo colega André Mendonça.

Na quarta, Dino melou o jogo armado pelo colega ao cancelar o afastamento de dois diretores da Polícia Federal. Ao gerar um impasse, fez com que o presidente da corte, Edson Fachin, deixasse sua inércia.

Ontem foi a vez de, por determinação de Dino, a PF ir às ruas para dissecar suspeitas que recaem sobre a Go Up, produtora do filme "Dark Horse". Pôs fogo na cocheira que ainda guarda muitos segredos sobre os mecanismos usados na elaboração da cinebiografia de Jair Bolsonaro.

Datada do último dia 3, a decisão de Dino não trata do filme que teria sido produzido com recursos amealhados pelo senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ) com o então banqueiro Daniel Vorcaro, mas reforça a cadeia de suspeitas relacionadas ao longa-metragem.

Frias, um dos alvos principais da operação de ontem, suspeito de desviar verbas de emendas parlamentares, é o produtor-executivo de "Dark Horse" e foi secretário de Cultura no governo anterior.

As informações recolhidas pela PF com base em apuração da polícia paulista indicam o porquê de a Go Up não ter sequer tentado usar leis de incentivo para a produção de "Dark Horse" — a produtora seria incapaz de atender as muitas exigências necessárias ao uso de tais mecanismos.

Dino atirou no desvio de emendas parlamentares, mas, como previa, acertou em outros alvos. Mostrou que a Go Up não tem estrutura compatível com a realização de um filme de orçamento gigantesco, que rivaliza com os de finalistas do Oscar.

Ao fazer isso, pressionou Mendonça, responsável por supervisionar a investigação que trata especificamente do suposto uso de recursos de Vorcaro em "Dark Horse": o coro pelo levantamento do sigilo do caso ficou ainda maior. De quebra, Dino reforçou suspeitas sobre o contrato de R$ 157 milhões entre a prefeitura de São Paulo, comandada pelo Ricardo Nunes, aliado da família Bolsonaro, com a ONG ICB (Instituto Conhecer Brasil), de Karina Gama, mesma proprietária da GO UP.

As sete armas apreendidas pela PF e que pertenceriam a Frias remetem a dois episódios ocorridos às vésperas do segundo turno de 2022: os tiros que o ex-deputado Roberto Jefferson disparou em policiais e a perseguição da então deputada Carla Zambelli (PL-SP), de arma em punho, a um homem que a teria provocado. Mais uma vez, há o risco de tiros — agora virtuais — atingirem o pé bolsonarista.

É cedo para dizer se os golpes desferidos pelo ex-ministro da Justiça de Lula diminuirãoa os danos causados à candidatura do atual presidente gerados por estilhaços de outras brigas jurídicas, a que cita seu filho Fábio, o Lulinha, e a que lança sérias suspeitas contra Alexandre de Moraes, seu aliado no STF. Mas as iniciativas mudam o jogo, colocam Flávio Bolsonaro na defesa e dão nova vida ao páreo.