As pipocas de Daniel Vorcaro
A crise na suprema corte seria traumática por si só, mas a proximidade da eleição transforma o caso em uma provável e absurda interferência no processo de escolha do futuro presidente da República, algo que remete à atuação do então juiz Sérgio Moro em 2018.
Preso, Daniel Vorcaro deve lamentar não poder encomendar sacos e sacos de pipoca para melhor acompanhar o desenrolar da trama deflagrada a pouco mais de um mês da eleição pelo ministro André Mendonça; uma novela capaz de, no limite, gerar anulações capazes de beneficiar o ex-banqueiro.
Os tiros trocados nos últimos dias por Mendonça e Alexandre de Moraes, também do Supremo Tribunal Federal, incluem acusações de pedaladas processuais que têm o potencial de indicar a parcialidade da Justiça em relação ao réu e assim provocar a anulação de todas as provas contra ele.
As pra lá de suspeitas relações de Moraes com o Master foram explicitadas em dezembro — quando surgiram as cifras envolvidas no contrato entre o escritório de sua mulher com o banco — e ressaltadas em março, com a publicação de gravíssimas mensagens enviadas por Vorcaro ao integrante do STF.
Durante mais de cinco meses, o assunto hibernou, favorecido por um sigilo que continua a proteger o ministro Dias Toffoli e a manter confinadas na cocheira informações sobre o caso "Dark Horse".
No último dia 24, porém, o relator do inquérito do Master deu 72 horas para a Polícia Federal atuar como uma espécie de Chat GPT e fazer um apanhadão do caso, relatório que deveria explicitar nomes de suspeitos, inclusive os de detentores de prerrogativa de foro no STF. Como qualquer outro brasileiro que não tivesse passado oito meses em Marte, Mendonça não poderia desconhecer que o levantamento incluiria o nome de Moraes.
Mendonça tornou público o caso e solicitou ao STF investigação contra o colega de corte. Acuado, Moraes foi para o contra-ataque com as armas utilizadas pelo adversário: encomendou à mesma PF levantamento que explicitasse supostas irregularidades cometidas por Mendonça. Irritado, este reagiu: como não poderia punir o colega, afastou de seus cargos os policiais que cumpriram ordens.
A crise na suprema corte seria traumática por si só, mas a proximidade da eleição transforma o caso em uma absurda interferência no processo de escolha do futuro presidente da República, algo que remete à atuação do então juiz Sérgio Moro em 2018.
O presidente Lula não foi o responsável pela ida de Moraes para o STF, mas a condução do processo contra os golpistas gerou uma inegável aproximação entre eles. O fato de o ministro ter atuado para, de maneira incompatível com suas funções, reaproximar Lula do presidente do Senado, Davi Alcolumbre, só piora a situação.
Indicado por Jair Bolsonaro para o STF, Mendonça virou, nos últimos dias, ícone da direita: em forma de boneco inflável, foi levado para comício de Flávio Bolsonaro; preces em sua intenção têm sido estimuladas em redes sociais.
Presidente do STF, Edson Fachin tem que botar ordem na casa, impedir a partidarização definitiva da corte e de preservar a lisura do processo eleitoral. De cara, deve encontrar uma maneira de suspender o sigilo de todas as investigações capazes de influenciar nosso voto: a democracia brasileira volta a correr risco.