Cury contra os Genéricos do Jair
A história de ter mente de direita e coração social revela, principalmente, uma opção dúbia, escolha de quem tenta ficar bem com os dois lados e que procura mitigar um evidente - e legítimo - viés conservador.
Detectada por duas pesquisas — BTG/Nexus e Atlas/Intel — a ascensão de Augusto Cury (Avante) na disputa pela Presidência ameaça abalar o bloco que poderia ser chamado de Genéricos do Jair.
Formado por Flávio Bolsonaro (PL), Ronaldo Caiado (PSD) e Romeu Zema (Novo), o grupo promete anistia para golpistas e acena com a possibilidade de trazer para o Brasil o modelo autocrático de El Salvador, objetivo também de Renan Santos (Missão) — este, um quase genérico de Pablo Marçal.
As pesquisas Quaest e Datafolha que serão divulgadas nos próximos dias ajudarão a tirar a dúvida sobre o crescimento de Cury. Mas os índices de 11% e 7,8% atribuídos ao médico e escritor de autoajuda mostram que ele merece ser levado a sério. Fora Flávio, foi o primeiro candidato de oposição a ultrapassar a barreira dos 10%.
Os percentuais reforçam a possibilidade de erro da direita tradicional de se deixar sequestrar pelo bolsonarismo ao abrir mão de candidaturas em tese mais viáveis, como a do governador de São Paulo, Tarcísio de Freitas.
Um olhar mais atento à pesquisa BTG/Nexus mostra que Cury encontra uma boa acolhida entre jovens de 16 a 24 anos, tem a preferência de 22% destes. O percentual é compatível com uma boa recepção ao seu discurso de estímulo ao empreendedorismo.
Dono de um patrimônio de R$ 242 milhões, ele se apresenta como exemplo do esforço pessoal, tema recorrente de livros de autoajuda, publicações que apregoam fórmulas de crescimento individual e que, a julgar por suas gigantescas tiragens, já deveriam ter transformado o Brasil num país de milionários. Precursor dos influenciadores da internet, Cury vende seu passado para os que buscam comprar um passaporte para a fortuna.
Ligado à sua trajetória de operário qualificado e de militante sindical, o presidente Lula (PT) sequer fala em empreendedorismo e insiste no emprego de carteira assinada.
Representante de um clã pendurado em empregos públicos e dono de currículo empresarial adocicado por uma fantástica loja de chocolates, Flávio não chega a ser exemplo para jovens que querem enriquecer com o próprio trabalho. Seu pai e mentor não conseguiu sequer empreender um golpe de Estado. Zema e Caiado enfatizam que trabalharam duro para ficarem ricos, mas ambos foram beneficiados por heranças familiares.
Cury ainda não conseguiu demonstrar um encadeamento lógico de suas propostas, a história de ter mente de direita e coração de esquerda revela, principalmente, uma opção dúbia, escolha de quem tenta ficar bem com os dois lados e que procura mitigar um evidente viés conservador.
Ao levar para seu nome de urna a palavra "escritor", ele procura reforçar a ideia de superioridade e saber, ainda que tais qualidades estejam ancoradas em platitudes expressas em livros como "Superando o cárcere da emoção" e "Nunca desista de seus sonhos".
Para uma parcela da população cansada de guerra e pressionada por uma campanha marcada por investigações policiais, a pregação que remete a uma paz idealizada e que ignora conflitos parece fazer sentido e frisa o cansaço com a polarização que divide o país.