SEGUNDA NO 2: Engasgos ocultos atrás de portas e janelas fechadas
'Pequenos engasgos', de Alê Motta: livro de contos breves conecta personagens, casas fechadas e vidas marcadas por segredos, violência e deslocamento
De volta aos pequenos contos, a escritora Alê Motta faz em "Pequenos engasgos" (Faria e Silva) uma espécie de jogo. Espalha, ao longo das páginas, histórias com diferentes personagens que, no entanto, parecem caminhar de mãos dadas, a ponto de quase forjarem um romance.
O novo livro caminha como seu "Velhos", de 2001, em que entrelaça episódios relacionados ao tema geral exposto no título. Agora, porém, as ligações são menos explícitas, ainda que delineadas pelas fotos que exibem detalhes de fachadas de casas.
Imagens que encaminham sensações contraditórias. Instigam a imaginação do leitor, estimulam a vontade de saber o que se passa dentro daqueles lugares, mas, ao mesmo tempo, tentam impedir que se saiba o que se passa por lá — portões e janelas permanecem fechados.
O mesmo processo se repete na aparente falta de correspondência entre os nomes dos contos e o conteúdo de cada um deles. Os títulos, secos como comentários de vizinhos mal-humorados, são enigmáticos ou ressaltam aspectos quase sempre pejorativos de imóveis (portão enferrujado, casa velha e abandonada ou em mau estado de conservação).
Em tese — nada é definitivo —, é por lá que moram homens e mulheres meio esquisitos, igualmente trancados, cheios de segredos, muitas vezes cruéis, alguns capazes de crimes terríveis. Nunca sabemos o que se passa dentro daquelas paredes que nem sempre chamam a nossa atenção quanto andamos pelas ruas, hoje povoadas de ameaças.
Os poucos parágrafos de cada história permitem um rápido e sempre impactante olhar, como se passássemos pela calçada no momento em que uma porta é inadvertidamente aberta.
A trajetória dos personagens revela que o perigo maior não está na esquina, mas dentro de casas que sequer parecem abrigar vidas. Há assassinos sem causa, amores sequer tentados e parados no ar, mortes comemoradas, matadores disfarçados, crimes insinuados, casal feliz que prejudica o movimento de uma farmácia.
Arquiteta, Alê traça personagens e paredes que se mostram inviáveis e ilógicos, como projetos incapazes de ficar de pé. Pessoas que indicam virar à direita e seguem pelo lado oposto, que dão meia volta ou que, de maneira mais simples, ficam estáticas, esperando um inevitável desabamento do teto sobre suas cabeças.
A angústia, o desalento e a falta de perspectivas dos com-teto é, porém, quebrada por um narrador que, acompanhado de seu vira-latas, Pelé, é obrigado a ir para um lado e para o outro, expulso de suas moradias improvisadas, como a saudosa maloca, um canto arranjado num posto de combustíveis. Seu local preferido ficava sob um determinado ponto do letreiro que anunciava os serviços lá prestados durante o dia:
"Pneus, Balanceamento, Alinhamento, Ar-Condicionado. Tudo virou lixo.
Eu gostava da porta Pneus. As letras vermelhas, gordinhas e brilhantes."
Ele e o cão são os únicos personagens que retornam ao livro, estão presentes em quatro contos. No segundo, o narrador conta a morte do colega que dormia em frente à porta Balanceamento; no terceiro, trata do destino igualmente trágico da mulher que passava as noites sob a palavra Alinhamento.
Na última história, revela seu passado e indica o porquê do nome de seu cachorro. Apesar das tantas desventuras, não transpira amargura, fica feliz por ninguém saber quem ele é. Não sabe se ainda tem casa, mulher, filhos e netos. Está numa praia, sem teto, sem paredes, nada mais pode cair sobre ele.