O liberalismo nos palanques

Vai longe o tempo em que um avô sonhava em ver o neto na mesma montadora de automóveis em que trabalhara a vida toda; em que um migrante nordestino com curso primário e diploma no Senai conseguia comprar casa e carro zero quilômetro.

Por Fernando Molica

Romeu Zema (Novo) é um dos que não se comprometem com aumento real do salário mínimo

Noves fora investigações policiais, vazamentos, propostas irreais, arroubos inconstitucionais e a tentativa de tiktokização da eleição, a campanha para presidente tem permitido diferenciar posições dos principais candidatos, traçar uma linha mínima entre a candidatura de esquerda e as de direita.

Diferentemente do que ocorria em outras corridas ao Planalto, há candidatos que não se preocupam em esconder promesssas como fim de aumentos reais para salário mínimo e aposentadorias, maior arrocho na concessão de aposentadorias, venda de estatais antes sagradas como a Petrobras e diminuição de direitos trabalhistas.

Não faz tanto tempo assim, os principais candidatos demonstravam, pelo menos no discurso, uma adesão a plataformas típicas da social-democracia, um parâmetro que acabou quebrado pela vitória de Jair Bolsonaro em 2018.

Ainda que herdeiro de uma tradição nacionalista e corporativa (como deputado, foi principalmente um defensor de privilégios de militares), o ex-capitão se viu, pelo menos, obrigado a simular uma adesão a princípios liberais para conseguir ganhar credibilidade com o combustível oferecido no posto de Paulo Guedes.

Fatores como as sucessivas acusações de corrupção, dificuldades de ascensão social até de pessoas com curso universitário, manutenção de baixos salários e o fim de grande parte de bons empregos minaram expectativas que, antigamente, apontavam para boas carreiras nos setores público e privado.

Vai longe o tempo em que um avô sonhava em ver o neto na mesma montadora de automóveis em que trabalhara a vida toda; em que um migrante nordestino com curso primário e diploma no Senai conseguia comprar casa e carro zero quilômetro.

As redes sociais abriram as cortinas da vida de luxo de tanta gente, geraram desejos, reafirmaram a importância de se buscar metas individuais e não coletivas, criaram também a ilusão de que com esforço e criatividade qualquer um seria capaz de conquistar riqueza — não foi difícil fazer com que muita gente trocasse o projeto coletivo pelo paraíso individualista da teologia da prosperidade.

Permanece, porém, uma falha no processo de adesão ao capitalismo. Candidatos que tanto criticam o estatismo não usam a mesma ênfase para alardear propostas capazes de ao menos diminuir a farra bilionária dos incentivos fiscais que alimentam boa parte do capitalismo brasileiro, costumam ressaltar mais o corte de custos em programas que beneficiam os mais pobres.

Mais discreto no campo econômico, Flávio Bolsonaro (PL) evita detalhar tesouradas que faria no setor público, mas sua principal assessora no campo econômico, Daniella Marques, já vociferou contra o fim da escala de trabalho seis por um.

O sonho privatista de tantos candidatos encontra eco em milhões e milhões de brasileiros, o problema seria viabilizar uma transição aceitável: mesmo os que sonham migrar das motocicletas de entrega para os foguetes de Elon Musk, recorrem ao SUS, têm filhos matriculados em escolas ou creches públicas e exigem mais segurança do Estado. A conta liberal também não é fácil de ser fechada.