Fim da reeleição: a fé de Tarcísio

O governador manifestou mais uma esperança do que uma expectativa. Nem o próprio Flávio compartilha da fé do aliado: em maio passado, admitiu a possibilidade de ficar oito anos no Planalto.

Por Fernando Molica

Governador disse acreditar que Flávio Bolsonaro vai honrar seu compromisso contra a reeleição de presidentes

O governador de São Paulo, Tarcísio de Freitas (Republicanos), jogou para o campo da honra uma proposta de fim da possibilidade de reeleição para presidentes da República feita pelo senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ). Este, porém, teve apenas o objetivo de tentar diminuir resistências à sua própria candidatura ao Planalto.

Na sabatina promovida pela CBN e pelos jornais O Globo e Valor Econômico, Tarcísio afirmou acreditar que, caso eleito, o primogênito de Bolsonaro vai "honrar" seu compromisso de ser contra a reeleição de presidentes.

Ressaltou que Flávio assinou proposta de emenda constitucional que acaba com a possibilidade de o chefe do executivo federal disputar a própria sucessão — o senador é o autor da PEC 4/2026, apresentada em março.

Desde já pré-candidato ao Planalto em 2030, o governador manifestou mais uma esperança do que uma expectativa. Nem o próprio Flávio compartilha da fé do aliado: em maio, em discurso em Santa Catarina, admitiu a possibilidade de ficar oito anos no Planalto.

Assinada também por outros 29 senadores, a PEC representou uma tentativa do parlamentar fluminense de se vacinar contra um dos principais obstáculos à sua candidatura: o temor, de grandes setores da direita, de uma perpetuação da família Bolsonaro no poder.

Os quatro filhos de Jair Bolsonaro que entraram para a política são relativamente jovens, têm muitas eleições pela frente — isso, sem falar em Michelle e na caçula Laura, fruto da tal "fraquejada" do pai. Em 2028, quando haverá disputas municipais, ela terá 18 anos.

Tarcísio foi a principal vítima da lógica do "sangue do meu sangue" de Jair. O governador era, de longe, o candidato ao Planalto preferido pela direita e centro-direita e personificação dos sonhos do agronegócio e do empresariado.

Caroneado (para usar uma palavra comum na sua carreira de origem, a militar), Tarcísio não procurou resistir à rasteira de Bolsonaro. Não reconheceu a queda, mas não desanimou: sacudiu a poeira e tratou de buscar a reeleição para o Palácio dos Bandeirantes.

Ao declarar crer que Flávio honrará o compromisso, Tarcísio tocou a bola pro lado. Sabe que tudo pertence ao campo da especulação; até porque, para ser reeleito em 2030, Flávio precisa, primeiro, ser eleito em 2026.

A fala do governador de São Paulo, porém, serviu para — de maneira indireta, como convém aos políticos — demonstrar insatisfação com a tentativa de eternização do clã. Bolsonaro apenas atualizou o conselho de Dom João VI para o filho Pedro, aquela história de colocar a coroa na própria cabeça antes que um aventureiro dela lançasse mão.

Tarcísio sabe que a derrota de Flávio em 2026 encurtará seu caminho em direção ao Planalto, será difícil a direita aceitar outro Bolsonaro para a tarefa. Mas, por enquanto, não falará nada, tratará de honrar seu compromisso com a família.