O brigadeiro e as nuvens golpistas

Bolsonaro não pode ser visto como contraponto à esquerda, isso representaria uma ofensa aos liberais, aos que se colocam à direita do espectro político.

Por Fernando Molica

Ex-comandante da Aeronáutica, Baptista detalha, em livro, a tentativa golpista de Jair Bolsonaro

A julgar por diversas reportagens, o livro do tenente-brigadeiro Carlos Baptista Junior, ex-comandante da Aeronáutica, encerra de vez qualquer dúvida ou discussão sobre a tentativa golpista liderada por Jair Bolsonaro.

O livro "Eu disse não: uma trincheira antigolpista" (Autêntica Editora) deveria calar ou, no mínimo, constranger os que ainda insistem em negar o óbvio, que questionam a condenação do ex-presidente, que classificam de "política" sua prisão, que defendem anistia para ele e outros criminosos. Os que agem assim reiteram seu desprezo à democracia e demonstram estarem dispostos a uma futura virada de mesa institucional.

O autor não pode ser chamado de simpatizante da esquerda, não nega que votou duas vezes em Bolsonaro para o Planalto; em entrevistas, deixa evidente sua oposição ao presidente Lula (PT). No comando da FAB, assinou notas dúbias sobre a preservação da democracia e ainda curtiu posts que pregavam uma intervenção militar.

Mas, diferentemente do ex-capitão e de seus cúmplices Baptista Junior não confundiu ideologia com desrespeito à Constituição, à democracia e a liberdade. Ao lado do então comandante do Exército, general Freire Gomes, fez o que deveria fazer.

Em um país tão acostumado a golpes militares, cumprir o dever passa a ser visto como excepcionalidade: "Ninguém deveria ser herói por cumprir a lei ao não apoiar o golpe", disse o brigadeiro ao jornal O Globo.

As reportagens sobre o livro explicitam as reiteradas iniciativas golpistas de Bolsonaro, um político que, durante toda sua carreira, demonstrou desprezo às liberdades e admiração a ditadores e torturadores. Seu modelo de militar nunca foram oficiais dignos, comprometidos com a farda e com a Constituição — adorava o desprezível e covarde Brilhante Ustra.

Em um trecho do livro, Baptista Junior revela detalhes do dia em que o então presidente ameaçou cancelar a eleição em que fora derrotado e intervir na Justiça: acabou ameaçado de prisão pelo comandante do Exército.

As tais quatro linhas da Constituição que Bolsonaro dizia defender eram tortas e flexíveis, poderiam, no seu entender, ser levadas para lá e para cá com o objetivo de acomodarem seus interesses pessoais.

A tentativa de ruptura do regime democrático, detalhada por Baptista Junior, não se confunde com visão política, com diferentes opções ideológicas. Bolsonaro não pode ser visto como contraponto à esquerda, isso representaria uma ofensa aos liberais, aos que se colocam à direita do espectro político, que condenam o estatismo. O ex-presidente representa oposição à democracia, à liberdade, à vida, ao direito de cada um de nós.