Suspeita pressiona Lula

A revelação das conversas muda o ritmo desejado pelo governo para o caso. Antes, para o Planalto, melhor seria que investigações e notícias seguissem de forma lenta. Agora, é preciso afastar rapidamente qualquer suspeita sobre o presidente.

Por Fernando Molica

Lulinha para Roberta: "Nosso futuro é Suíça"

A publicação de gravações entre Fábio Luís Lula da Silva e a lobista Roberta Luchsinger mostra a necessidade de o presidente Lula (PT) mudar sua posição sobre as suspeitas em torno de seu primogênito: não basta mais dizer que cabe a ele provar sua inocência.

Para o petista, o fundamental é mostrar que o governo não agiu de maneira conivente ou cúmplice. Qualquer dúvida tem poder suficiente para atrapalhar e, mesmo, impedir sua reeleição.

As conversas, divulgas pelo site Metrópoles, indicam a clara possibilidade de que Fábio — chamado de Lulinha — tenha defendido interesses privados. Isso caracterizaria tráfico de influência e/ou corrupção ativa.

A questão é saber se as supostas ações irregulares de Fábio, que chegaram à antessala presidencial geraram vantagens indevidas para as empresas para as quais ele teria atuado. O Ministério da Saúde e a Dataprev negaram qualquer tipo de contrato com, respectivamente, World Cann (que comercializa cannabis medicinal) e a 3Structure It.

Uma rápida consulta ao Portal da Transparência revela a existência de quatro contratos da 3Structure It com o governo federal, um total de R$ 55,721 milhões: apenas um deles, com o Comando do Exército, no valor de R$ 21,831 milhões, foi assinado antes da nova posse do petista (tem data de novembro de 2022). Há ainda suspeitas relacionadas a Fábio no caso de desvios de aposentadorias e pensões — isso, por seus contatos com Antônio Carlos Camilo Antunes, o "Careca do INSS".

Lula sairá bem da história caso seja provado que o aparente lobby de Fábio não deu em nada. Mas a existência de contratos com a 3Structure It é, por si só, capaz de levantar suspeitas.

Então chefe de gabinete do presidente, Marco Aurélio Santana Ribeiro, o Marcola, admitiu que recebeu favores de Roberta; isto, em forma de empréstimo posteriormente quitado. Uma ajuda esquisita, que envolve a compra e a entrega de joias para ele. Há também fortes indícios de que o lobby de Fábio chegou a Swedenberger Barbosa, ex-secretário-executivo do Ministério da Saúde.

A revelação das conversas muda o ritmo desejado pelo governo para o caso. Antes, para o Planalto, melhor seria que investigações e notícias seguissem de forma lenta, de maneira a não atropelar o processo eleitoral. Agora, a situação é outra: cabe tentar provar rapidamente que o aparente processo contínuo de tráfico de influência não teve consequências; a eleição é logo ali.

Lula sabe que há uma diferença entre o processo judicial e o político, ainda mais em véspera de eleição. Uma eventual condenação de Fábio tende a demorar, envolve indiciamento, denúncia, julgamento, recursos. Já a punição ao presidente seria muito rápida, ocorreria em outubro deste ano.