Livros: a arte de unir qualidade e boas vendas

Em um país com baixos índices de renda, escolaridade e leitura, indicações de livros na internet e uma boa curadoria de eventos permitem arejar um mercado fechado em seus integrantes

Por por FERNANDO MOLICA

Apresença constante de autores de ficção como Itamar Vieira Junior e Socorro Acioli em listas de best-sellers revela um fenômeno nem sempre comum, a conjugação entre qualidade de livros e boa — em alguns casos, ótima — receptividade do público.

Há algumas poucas décadas, a difícil e sempre almejada combinação entre o tal do sucesso de crítica e público era um quase privilégio, na produção contemporânea, de autores como Chico Buarque e Jô Soares, que traziam de suas carreiras principais uma espécie de selo, um atestado prévio de qualidade aos seus livros: nenhum dos dois empurraria uma besteira qualquer para o mercado.

Com seu impressionante "Torto arado" (2019), Vieira surpreendeu leitores com um romance que resgatava e renovava uma tradição presente em obras de escritores como Jorge Amado, Graciliano Ramos e José Lins do Rego. O fato de o livro ter sido lançado no primeiro ano do mandato de Jair Bolsonaro deve ter colaborado para sua popularidade: representava, assim como o longa-metragem "Bacurau", de Kleber Mendonça Filho e Juliano Dornelles, um respiro, contraponto ao processo de ataques a uma universo político, artístico e cultural comandado pelo então presidente.

A coincidência em nada diminui romance e filme, pelo contrário, renovou a importância de obras capazes de dialogar com o meio em que foram geradas. Ambos conversaram com um público que, diante de um impasse institucional, propunham releitura e invenção de histórias e impasses brasileiros. A exemplo do que tão bem faz o escritor Antônio Torres, ousaram estabelecer novas versões da convivência e choque entre universos rurais e urbanos.

O fenômeno das redes sociais e a disseminação de festivais literários pelo país contribuíram para o processo de aproximação entre leitores e livros. Em um país que ainda ostenta baixíssimos índices de renda, escolaridade e leitura, indicações de livros em redes sociais e uma boa curadoria de eventos permitem arejar um mercado que, com frequência, gira em torno de um próprio e capenga eixo de escritores, editoras, críticos, tradutores, agentes literários e divulgadores, algo que, na prática, parece dispensar a existência de leitores.

Não raras vezes, a Flip foi decisiva para a popularização de autores que não poderiam ser chamados de iniciantes, como ocorreu, em 2023, com Socorro Acioli — seu "A cabeça do santo", outro livro que estabelece fortes e desafiantes conexões com nosso país, havia sido lançado em 2014.

Itamar e Socorro não são os únicos brasileiros que conseguem unir qualidade e vendas, mas esses autores ainda são exceção no mercado. Não há, é óbvio, receitas para um livro — ou um filme, uma peça, um show — ser tão abraçado pelo público. Ainda mais em um país tão injusto, em que a falta de grana representa uma barreira para o acesso a boa parte dos bens do universo artístico e cultural. Professores, em especial os de Português e Literatura, são personagens fundamentais desse processo, mas seria injusto jogar em suas costas a responsabilidade por um baixo índice de renovação de autores em escolas.

Um bom caminho seria buscar uma integração entre eventos literários e secretarias de Educação, estabelecer parcerias que envolvessem a presença futura de autores de livros adotados em escolas de uma determinada cidade. A ida do escritor ou escritora funcionaria como um estímulo para estudantes, um argumento a mais para convencê-los a trocar o imediatismo das páginas brilhantes e viciantes do celular por um universo ainda mais fascinante e sedutor: por falar nisso, "Torto arado" e "A cabeça do santo" serão enredos, em 2027, da Vila e da Tijuca.