O piscinão do poder
A imagem vai além do que vemos. Revela uma breguice exibicionista comparável com as festas de Daniel Vorcaro, ilustra um poder que, no Brasil, vai além de governos.
Poucas imagens são tão representativas do Brasil quanto a que mostra 14 marmanjos — entre eles, deputados e senadores — dentro e em torno da piscina do Rancho Tomaz, propriedade do advogado Willer Tomaz, em Planaltina, a 80 quilômetros de Brasília.
A foto, que teria sido feita em 2023, reúne pelo menos dois suspeitos de participação nas fraudes do INSS (Tomaz e o senador Weverton Rocha (PDT-MA). Não documenta qualquer irregularidade, não é ilegal mergulhar em piscinas de amigos.Mas há imagens que dizem mais do que mostram. Tanto que a foto, extraída do celular de Weverton, virou notícia, repercutiu ao ser publicada pela revista Piauí.
O anfitrião posou no centro do grupo que está na piscina. Tem cinco homens à sua direita e cinco à esquerda, entre eles, os deputados Elmar Nascimento (do União Brasil), Alexandre Ramagem (do PL, que teria o mandato cassado depois de condenado por participação na trama golpista), Juscelino Filho (PSDB, então no União e ministro das Comunicações) e os senadores Weverton e Ângelo Coronel (Republicanos, na época no PSD).
Tomaz está com o braço direito levantado e o punho cerrado, uma demonstração de poder. Atrás dele anfitrião, fora da piscina, há três outros parlamentares — o senador Efraim Filho (União), o então presidente da Câmara, Arthur Lira (PP) e o deputado Paulo Azi (União). Embora de bermudas e sorridentes, têm uma atitude mais discreta, estão secos, sem bebidas nas mãos; demonstram o exercício de um outro tipo de poder, mais comedido.
Dos parlamentares, quatro eram do União; os outros, do PDT, PL, PSD e PP. A variedade das siglas impede que a foto seja batizada com tentador nome de "Piscinão do Centrão". Mas a lógica deste grupo de limites indefinidos é inclusiva, é só chegar e mergulhar.
Não há nada que indique que aqueles homens estivessem reunidos em torno de algo irregular. Mas, vale insistir, a imagem vai além do que vemos. Revela uma breguice exibicionista comparável às festas de Daniel Vorcaro, ilustra um poder que vai além de governos: remete à série sobre mordomias publicada pelo jornal O Estado de S.Paulo em 1976, no auge da ditadura. Reportagens inspiradas em confortos desfrutados por altos funcionários da União Soviética.
A imagem do piscinão serviria também para ilustrar a falta de limites entre o público e o privado e a confusão institucional entre os poderes: outro dia, Alexandre de Moraes, do Supremo Tribunal Federal, promoveu, em sua casa, encontro de pacificação entre o presidente Lula (PT) e o presidente do Senado, Davi Alcolumbre (União). Um ministro do STF, que tem poderes para julgar os dois convivas, não poderia intermediar esse tipo de confraternização.
Os convidados para o mergulho na piscina do advogado integrariam um chamado "Grupo seleto", denominação que até faz sentido — não necessariamente pelos méritos dos banhistas, mas pela exclusão dos que dele não fazem parte: nós, os afogados.