Os muitos impactos do inacreditável Inhotim

As obras são obrigadas a reconhecer que parecem pequenas diante das árvores que as cercam: é como se estas tivessem aceitado ceder uma parte de seu espaço para criações humanas que com elas dialogam.

Por Fernando Molica

Detalhe de "Contraplano", obra de Lais Myrrha, em Inhotim

Tão relevante quanto as gigantescas, belas e desafiadoras obras apresentadas no (e tome de insuficientes adjetivos) impressionante Instituto Inhotim, em Brumadinho (MG), é a relação que lá se estabelece entre espaço, arte e público. Não dá para separar o que é exposto do ambiente e das pessoas que circulam por aqueles intermináveis caminhos.

Mais do que uma imersão em uma parcela significativa da produção contemporânea, Inhotim oferece a possibilidade de um despojamento em relação ao peso simbólico presente ao universo das artes plásticas e visuais. O passeio pelas galerias e obras externas afasta qualquer necessidade de conjugação do verbo entender, que acaba substituído pelo desfrutar.

Claro que pessoas com maior grau de conhecimento daquele universo têm outras possibilidades de diálogo com o que é exibido — serve para Inhotim e para um jogo de futebol —, o conjunto faz uma espécie de contraponto ao saber acadêmico, formal e, muitas vezes, excludente.

Por mais espetaculares que sejam, as obras são obrigadas a reconhecer que parecem pequenas diante das árvores que as cercam: é como se estas tivessem aceitado ceder uma parte de seu espaço para criações humanas que com elas dialogam. Caso muito evidente em "Contraplano", de Lais Myrrha, que chamou para a conversa um famoso projeto de Oscar Niemeyer, o edifício de Belo Horizonte que leva seu nome — a obra de Myrrha ressalta o que há de escultor no arquiteto.

Mas nada se compara com a interação do público que, posto à vontade em um espaço tão amplo, afetuoso e acolhedor. Sabe que as obras estão ali para serem vistas, admiradas e, em diversos casos, tocadas. Pessoas que, talvez, tenham por lá um primeiro contato com uma produção que revela-se próxima e companheira.

A brincadeira que tantos trabalhos propõem resgata a acepção primeira da expressão fazer arte. E aí vale brincar de casinha em "Invenção da cor, Penetrável Magic Square #5, De Luxe", de Hélio Oiticica e chutar bolas de aniversário e deitar nas redes que ele e Neville D'Almeida oferecem na Galeria Cosmococa.

A grandiosidade de outras obras, como a de Robert Irwin, colocada no ponto mais alto do instituto, e "Beam Drop Inhotim", de Chris Burden, não é opressora — ambas parecem nos chamar para brincar. O mesmo convite feito por "Rodoviária de Brumadinho", de John Ahearn e Rigoberto Torres: dá vontade de entrar no ônibus azul.

Como não desejar dirigir um dos três fusquinhas que, em "Troca-troca", se oferecem depois de cometerem a travessura de misturarem entre si partes de sua carroceria — um era azul; outro, amarelo; o terceiro, vermelho. Em uma viagem do Rio a Curitiba (PR) comandada pelo artista Jarbas Lopes, talvez tutor do trio, viraram uma mistura, um passou a fazer parte do outro.

Há trabalhos que capturam uma atenção maior, que surpreendem pela imposição e delicadeza, como "Ttéia 1 C", de Lygia Pape, um quase desafio ao visitante que se vê capturado pelas teias de fios metalizados. As fotografias de Claudia Andujar que tratam dos yanomamis funcionam como janelas que, lá do meio de Minas Gerais, revelam outro povo, frisam outras luzes, outra maneira de ver o mundo.

Exposições temporárias, como "Esconjuro", de Paulo Nazareth, e "Dupla Cura" de Dalton Paula, também pegam o visitante pela mão para um passeio de desafios, obstáculos e beleza. A nobreza que Paula atribui a personagens negros é um manifesto artístico e político, que leva seus modelos aos seus devidos lugares históricos.

Inusitado, por sua ousadia, por seu tamanho e por suas qualidades, Inhotim — que ganhará um irmão ainda mais gigantesco ao lado — é quase inacreditável. Seu impacto é tão positivo que, de maneira até contraditória, provoca tensão, ressalta tragédias e misérias de um país que teima em brigar consigo mesmo. Carrega, em si, beleza, provocações e desarrumações que, em saudável conflito, apontam para novas alternativas.