O pastel e o empréstimo
O petista tem o direito de defender o ex-auxiliar, de pressupor sua inocência, de considerar suas explicações. Mas, presidente, há empréstimos e empréstimos.
Políticos, que adoram posar comando pastel em áreas de comércio popular, poderiam, pelo menos, pensar em qual seria a reação do feirante ou de frequentadores de um bar diante de algumas de frases em que tentam explicar o inexplicável.
Segundo reportagens, o presidente Lula teria usado um desses argumentos capazes de provocar risos em qualquer esquina para defender Marco Aurélio Ribeiro Santana, seu ex-chefe de gabinete.
Questionado sobre um valor que lhe fora entregue pela empresária Roberta Moreira Luchsinger, Marcola, como é conhecido, afirmou que o dinheiro era fruto de empréstimo, quitado com o pagamento de R$ 249 mil. Lula teria, então, dito numa reunião: "Quem aqui nunca pediu empréstimo para um amigo?".
O petista tem o direito de defender o ex-auxiliar, de pressupor sua inocência, de considerar suas explicações. Mas, presidente, há empréstimos e empréstimos. É razoável pedir para um conhecido pagar um almoço ou jantar, inteirar o dinheiro da passagem.
No limite, não seria inédito pedir algo mais polpudo. Mas, amigos, amigos; lobistas à parte. Pelo que se sabe, Roberta Luchsinger, ex-candidata a deputada pelo PT em São Paulo, é dona da RL Consultoria e Intermediações S.A., é mais um daqueles personagens que gravitam em torno do poder para propor, prospectar e — como diz o nome de sua empresa — intermediar negócios. ntermediações.
Até aí, OK. Apesar de não ser regulamentada no Brasil, a atividade do lobby não é ilegal, empresas e setores organizados da sociedade podem defender seus interesses. Mas não é aceitável que integrantes do governo — ainda mais alguém com acesso direto ao presidente — peçam ou aceitem vantagens de lobistas, por maior e mais desinteressada que seja a amizade entre os personagens em questão.
A posição que Marcola ocupava no Planalto e a atividade profissional de Roberta deveriam ter feito com que ele procurasse outra amizade para obter o tal — e, até agora, não comprovado — empréstimo.
Nas suspeitas que envolvem Fábio Luís Lula da Silva, seu primogênito, o presidente tem, pelo menos em suas comunicações públicas, adotado uma postura mais compatível com o cargo, e repete que não irá interferir nas investigações, um tipo de declaração que deveria ser desnecessária em um regime democrático e republicano.
Marcola, que já havia deixado o cargo no palácio, não integra mais a campanha de reeleição de Lula. Cabe agora à Polícia Federal apurar se ele, de alguma forma, facilitou a vida de Roberta no governo, o que poderia indicar um crime. Ao presidente não cabe fazer nada: no máximo, pode pensar no que diriam seus companheiros de São Bernardo se ouvissem sua pergunta retórica sobre um empréstimo de R$ 259 mil.