SEGUNDA NO 2: A fantasia que marca livros e jogos de futebol

Por por FERNANDO MOLICA

Roberto Sais Filho, personagem do romance "As regras", de Lilian Sais, com as filhas

Nem sempre é fácil enquadrar um livro em categorias que definem romances, volumes de contos, crônicas, memórias, e por aí vai. Também não é assim tão simples dizer se aquelas páginas encadernadas nos entregam ficção ou carregam histórias compromissadas com fatos verídicos e narrados com objetividade.

Como nos relatos que fazemos no cotidiano, é difícil relatar a vida como ela — supostamente — é. Cada um de nós vê e conta um mesmo fato de maneira única, particular, por mais honesta que pretenda ser a narrativa. Não é possível, ainda bem, ter uma espécie de VAR capaz de checar detalhes tão pequenos que tornam única cada descrição de um mesmo episódio.

Na última Flip, a mesa que reuniu as escritoras Flávia Péret e Julieta Correa tratou dessa dificuldade de separar o ocorrido do inventado. Na conversa, chegou-se a dizer que a ficção serviria para preencher e completar hiatos de histórias reais.

O fato de a mineira Flávia e a argentina Julieta terem escrito, respectivamente, sobre a doença de Alzheimer vivenciada pela avó ("Coisas presentes demais") e a demência da mãe ("Por que são tão lindos os cavalos?") embolou ainda mais limites entre o ocorrido e o imaginado. De maneira involuntária e triste, suas protagonistas trataram de misturar esses mundos, anteciparam o que a neta e a filha fariam.

Tudo isso tem a ver com o emocionante livro "As regras", em que a escritora paulista Lilian Sais trata da convivência com seu pai, Roberto, a partir da admiração de ambos pelo futebol. No início do jogo, a narradora conta que o texto nasceu de proposta que recebera, em outubro de 2022, para dar uma aula que tratasse da relação entre o esporte e a escrita de mulheres. A tal aula acabou não ocorrendo, mas o convite funcionou como uma madeleine com jeitão daquele cachorro quente com mate consumido em estádios — foi capaz de fazer aflorar histórias delicadas que tratam de futebol e vida, uma espécie de épico doméstico e carinhoso.

Ao longo das páginas, a escritora Lilian afirma e reafirma ser a personagem Lilian, filha do palmeirense Roberto Sais Filho. Na narrativa, tenta provar que é tudo verdade, o livro traz reproduções de cartões de visita do pai, que ao longo da vida vendeu sabonetes, molho de tomates, isopor, imóveis, e isso e aquilo. Há também fotos do menino vestido com a camisa do Palmeiras, do jovem bigodudo jogando uma pelada e dançando.

Há lembranças de partidas como a final da Copa de 1994, a memória da morte de Ayrton Senna, o relato da doença da mãe. Histórias que às vezes parecem meio soltas nas páginas, algumas chegam de forma meio abrupta, como se contadas em meio a uma conversa que vai de lá pra cá, de cá pra lá: uma hora o time ataca, outra defende, com frequência toca a bola de lado. O futebol, afinal, como ressalta o texto, é um dos espetáculos de dança mais longos e peculiares que existem.

E é assim, no ritmo que às vezes lembra um jogo assistido em uma dessas tardes de domingo, depois de uma macarronada ou de um churrasco, que Lilian coloca seu time em campo, arma e conclui suas jogadas. É tão convincente que faz o leitor acreditar que ela, a autora Lilian, é mesmo a Lilian das páginas, a filha do Roberto.

É bem provável que a Lilian que escreveu o romance — o livro é assim definido na página que traz os créditos da publicação — tenha procurado retratar a menina que ela foi, a narradora que, em primeira pessoa, trata de seu pai, de regras, de jogadas, de passes, de acertos e erros. Mas autores são diferentes de personagens.

Sabe-se lá o que a Lilian-escritora procurou fazer ao traçar a estratégia do seu texto, ao narrar uma Lilian-protagonista, ao procurar nos convencer que narrou o jogo de forma clara e objetiva, como se isso fosse possível. Futebol só é tão bom porque, como um bom livro, remete à fantasia, ao que achamos que somos, ao que queremos ser. Saímos do jogo-livro como quem deixa o Maraca no início da noite de um domingo, ávidos para, no carro do pai, ligar o rádio e ouvir João Saldanha nos dar uma outra visão do que acabamos de assistir — jogos e livros nunca terminam no apito final.