Pausa muda o ritmo da sinfonia do futebol

O futebol tem uma cadência mais próxima do ritmo da vida, cheia de altos e baixos. Ao longo de inexatos 90 minutos, uma partida costuma apresentar diferentes variações: ficamos irritados com toques de bola para trás, para os lados, mas eis que a lerdeza é quebrada por um drible, um lançamento, um gol, um voo impossível de um goleiro.

Por Fernando Molica

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Caso seja institucionalizado, o intervalo comercial no meio de cada tempo quebrará uma característica do futebol, a peculiaridade de ser como uma sinfonia, com inúmeras variações de andamento e intensidade.

Ao criar a pausa obrigatória para hidratação, a Fifa segue o padrão norte-americano de fracionar disputas esportivas, o que também favorece a exposição de marcas comerciais.

Arrisco dizer que, nos Estados Unidos, a resistência ao futebol está ligada à atração que sentem por lá pela lógica do videoclipe. Os esportes favoritos dos norte-americanos, como beisebol e aquele futebol esquisito, são descontínuos, buscam uma sucessão de cenas, uma sequência de melhores momentos; algo que revela infantilidade e incapacidade de compreensão do tempo por parte dos torcedores. Até o basquete foi contaminado por essa tendência de fatiamento do jogo.

O futebol tem outra cadência, mais próxima do ritmo da vida, cheia de altos e baixos. Uma partida apresenta diferentes variações: há momentos de profundo tédio e outros de intensa emoção; ficamos irritados com toques de bola para os lados, mas a lerdeza acaba quebrada por um drible, um lançamento, um gol, um voo impossível de um goleiro.

Quem gosta de futebol está acostumado com a alternância presente em uma sinfonia, há o allegro, o allegro non troppo, o minueto, o presto, e por aí vai. Na plateia, sabemos que podemos ser surpreendidos por uma mudança brusca, com uma entrada triunfal de trompetes e trompas que, associados aos tímpanos, quebram a placidez de violinos e violoncelos — como fazem Vini Jr., Messi e Mbappé. O futebol, com seus imprevistos, nos torna mais calejados para a vida.

O público dos esportes mais cultuados nos Estados Unidos prefere a sequência de emoções até mesmo na marcação dos pontos. Age como um adolescente que, sábado à noite, quer enfileirar programas: um bar, dois shows, uma casa noturna e uma saideira, como se alternasse grand finales.

Tão presente na cultura dos EUA, a necessidade de definir vencedores e perdedores é tamanha que, entre as décadas de 1970 e 1990, ligas de "soccer" proibiram o empate nos jogos. A decisão não se dava por cobrança de pênaltis, mas por um "shootout": o atacante saía de fora da grande área com a bola dominada e tinha cinco segundos para fazer o gol — uma papagaiada para criar mais emoções e tentar negar os empates cotidianos, os zero a zero que marcam nossas trajetórias.

É razoável que haja um intervalo extra em jogos disputados quando a temperatura é muito alta, mas não cabe transformar a exceção em regra. Os 45 minutos de cada tempo de uma partida guardam a ideia de continuidade; estratégias são criadas tendo em vista a não interrupção.

A pausa forçada, que tem sido até vaiada pelo público da Copa, quebra o ritmo, esfria e muda o jogo. No futebol, como na vida, são raras as chances de uma parada que permita grandes reflexões, a graça está em detectar as chances de virada com a partida em movimento.