'Cheire com responsabilidade'

Admitir que pessoas usem drogas tem a ver com direitos individuais; estimular a utilização de produtos capazes de gerar adicção e danos graves à saúde é irresponsável.

Por Fernando Molica

A jogatina é anunciada livremente nas TVs

O país que diz se chocar com a apreensão, em uma favela carioca, de tabela de preços de drogas é o mesmo que considera normal ver publicidade de bets na TV e ouvir locutores e comentaristas de jogos da Copa incentivarem apostas e darem supostas dicas para os espectadores. Não é razoável fazer guerra contra algumas drogas e estender tapete vermelho para outras — o vício na jogatina é tão grave quanto qualquer outro.

A internet tornou impossível proibir cassinos virtuais; mesmo que as bets sejam proibidas no Brasil não há como impedir que apostadores joguem em casas ilegais. Mas cabe à sociedade definir parâmetros para impedir a disseminação de práticas danosas, que destroem vidas, sobrecarregam o sistema de saúde e sugam a renda nacional.

Há algumas poucas décadas, a propaganda de cigarros era liberada, não havia restrições para a de bebidas alcoólicas, fabricantes de brinquedos podiam direcionar mensagens publicitárias para crianças. Tudo isso foi proibido ou, pelo menos, limitado.

É razoável admitir que adultos têm o direito de fazer o que bem entendem de suas vidas, desde que não prejudiquem terceiros — nada de dirigir depois de beber. Vários países liberaram a maconha; outros, como Portugal, descriminalizaram o consumo de todas as drogas.

Mas o fato de um país permitir o consumo recreativo de maconha e cocaína não é o mesmo que liberar a propaganda dessas substâncias. Admitir que pessoas usem drogas tem a ver com direitos individuais; estimular sua utilização é irresponsável.

O Brasil, segundo pesquisas, rejeita a descriminalização de drogas que alimentam o crime. Este mesmo país prende, condena e joga nas prisões jovens — quase sempre, pretos e pobres — flagrados com maconha ou cocaína (os brancos e não pobres tendem a ser tratados como usuários).

Considera-se normal classificar como traficantes adolescentes que, na grande maioria das vezes, desarmados, vendem drogas para os que querem comprá-los. Esse mesmo Brasil considera normal que pessoas que enriqueceram com seu talento e seu trabalho — como Neymar, Vini Jr. e Galvão Bueno — estimulem pessoas a se jogarem na boca do tigrinho.

Jogos de azar são programados para possibilitar vitórias aos apostadores novatos que, depois, são depenados: ao buscarem recuperar a grana, são tragados pela máquina. A jogatina, por aqui, afeta supermercados, o comércio em geral e até empresas aéreas, como revelou, esta semana, Celso Ferrer, CEO da Gol.

Em 2023, o Senado aprovou um projeto que praticamente proibia a propaganda de bets, mas a Câmara tratou de descaracterizá-lo. A proposta acabou sancionada pelo presidente Lula e virou lei. É esta regulamentação que prevê a hipocrisia do uso da frase "Jogue com responsabilidade" após estímulos à jogatina. É como dizer "Cheire com responsabilidade" a um viciado em cocaína.