Dona Marta e o fim das UPPs
A repercussão da criação das UPPs foi tão boa que o governo tratou de inventar uma sigla e de transformar o improviso em programa. As autoridades de segurança pareciam ter, enfim, encontrado uma saída.
No início de dezembro de 2008, em um almoço de trabalho no Palácio Laranjeiras, Sérgio Cabral, governador do Rio, fez uma declaração bombástica: "Acabou o tráfico no Dona Marta". Dita para os dois jornalistas convidados — eu e o diretor de redação de O DIA, Alexandre Freeland —, a frase virou destaque na coluna que eu produzia e manchete do jornal.
O anúncio de Cabral antecipava o que viria ser batizado de UPP, Unidade de Polícia Pacificadora. Uma iniciativa baseada no óbvio: favelas deixariam de ser alvo de operações eventuais, responsáveis por muitas baixas e poucos resultados, e, como as demais áreas da cidade, teriam policiamento permanente.
Cabral explicou que a experiência fora iniciada no morro de Botafogo pelas configurações específicas da comunidade — pequena para os padrões cariocas, cerca de cinco mil habitantes — e com apenas duas entradas, uma por baixo e outra pelo alto. Obstáculos naturais e muros impediam sua expansão para as laterais.
O fato de ficar na Zona Sul era outro atrativo para a implantação da nova proposta de policiamento. Área mais rica da cidade e que concentra o fluxo de turistas, serviria de boa vitrine para a novidade — em 1996, Michel Jackson gravara um clipe na favela, que, lá de cima, oferece vista deslumbrante da Baía de Guanabara.
Havia outro componente simbólico. Foi lá que, em 1987, estourara a primeira guerra entre quadrilhas rivais de traficantes ocorrida fora de bairros mais pobres. O confronto entre Zaca e Cabeludo ocupou o noticiário por vários dias, inaugurou um tipo de cobertura jornalística específica, que incluiu entrevistas com os protagonistas da guerra.
A repercussão da novidade foi tão boa que o governo inventou uma sigla (UPP) e transformou o improviso em programa. Os tiroteios acabaram, a criminalidade diminuiu. A lógica do extermínio daria lugar à do patrulhamento permanente; as UPPs não se propunham a acabar com o tráfico de drogas — objetivo ilusório, na favela ou no asfalto —, buscavam interromper a lógica do domínio territorial que leva à compra, porte e uso de armas pesadas, estimula a guerra, provoca mortes e incentiva a corrupção de agentes do Estado.
O maior problema do projeto de polícia de proximidade foi, talvez, o fato de ter dado certo em muito pouco tempo. A inauguração em série de UPPs virou ativo político e eleitoral, a ausência de um planejamento mais consistente permitiu que traficantes migrassem para comunidades não beneficiadas pelo programa, também houve falta de investimentos sociais. Além disso, a pacificação de favelas contrariou interesses dos que, fora do morro, lucram com a violência.
Tantos anos depois, as UPPs viraram uma sigla esmaecida, o estado voltou a fazer operações improdutivas, que matam, promovem o caos e procuram colar em policiais e governantes o ilusório carimbo de lutadores implacáveis contra o crime. A mobilização de ontem visava cumprir 44 mandados de prisão: seis suspeitos foram presos, houve pânico, aulas foram suspensas e um trabalhador que estava num ônibus tomou um tiro na perna. Hoje, o comércio de drogas deverá funcionar normalmente no morro.