Lula e a fritura em fogo baixo

Não faria sentido o presidente receber em seu colo parte da bomba que tem feito estragos principalmente na direita e que feriu até mesmo seu principal oponente, o senador Flávio Bolsonaro (PL).

Por Fernando Molica

Senador Jaques Wagner: cargo de líder ameaçado

A provável saída Jacques Wagner (PT-BA) da liderança do governo no Senado revelará que, mais uma vez, Lula (PT) terá usado sua estratégia de deixar que os fatos cuidem de fazer uma inevitável fritura — a imobilidade é uma tomada de posição.

Além de se defender, o senador baiano tem que se preocupar com seu futuro político imediato. Há o risco de, como o ex-governador fluminense Cláudio Castro (PL), sentir-se obrigado a desistir da eleição de outubro quando, em tese, tentará renovar seu mandato.

As convenções partidárias têm que ser realizadas até 5 de agosto; até lá, Wagner torce para que não apareçam novos fatos graves contra ele. O PT não pode se arriscar a perder influência na Bahia, quarto maior colégio eleitoral do país e que, em 2022, deu a Lula 72,12% de seus votos.

Amigo do ex-governador baiano, o chefe do PT tem agido de maneira a a não ser acusado de falta de solidariedade com um velho companheiro: telefonou para ele, mandou um #tamujunto, e deixou a bola rolar mansamente na direção do gol defendido pelo senador.

Seria inocência acreditar que, diante das evidências, o presidente, em um ano em que disputará a reeleição, vá bancar a permanência de Wagner em uma função tão relevante, o que até despertaria suspeitas de um suposto envolvimento maior do petismo com o Master. Não faria sentido Lula aceitar receber em seu colo parte da bomba que tem feito estragos principalmente na direita e que feriu seu principal oponente, o senador Flávio Bolsonaro (PL).

Ao mesmo tempo em que telefonou para Wagner, Lula deixou que o petismo tratasse de encaminhar uma solução. De maneira aberta ou nos bastidores, nomes relevantes do partido empurraram o senador baiano para um inevitável abismo — a barulheira nas redes sociais superou as comemorações de torcedores africanos que colecionam zebras na Copa.

Em tempo: o caso Wagner, assim com a admissão, por Flávio Bolsonaro, de suas relações perigosas com Daniel Vorcaro e o lazer "all inclusive" proporcionado pelo banco a Ciro Nogueira (PP) fazem lembrar uma conversa que tive, há muitos anos, com executivos de um então importante banco.

Eles estavam preocupados em saber como evitar a repercussão negativa de determinadas notícias sobre a instituição. Falei algumas obviedades: a necessidade de seguir instruções da assessoria de imprensa e, principalmente, não mentir — o pior que pode acontecer nesses casos (não é mesmo, senador Flávio?) é a descoberta de que a fonte da informação faltara com a verdade.

Ainda acrescentei um comentário digno do Conselheiro Acácio, personagem de Eça de Queiroz especialista em discorrer sobre lugares-comuns com ares de sabichão: a melhor maneira de não arrumar problema com a imprensa é não fazer besteira.

Mas o banco continuou botando números para brincar de pique-esconde, falseou créditos e a instituição foi para as cucuias — seus acionistas continuaram ricos. A história recente brasileira mostra não ser incomum que pessoas poderosas deem um jeito de se livrarem dos rigores da lei, mas arquivamentos de casos nem sempre limpam biografias.