O jogo duro de Graciliano Ramos

Mas, como em outros de seus livros, o que importa é menos a tragédia anunciada do destino e, sim, o processo que leva personagens ensandecidos ao seu encontro. As narrá-los, Graciliano ressalta seus limites, suas incapacidades.

Por Fernando Molica

Graciliano Ramos diante de retrato seu pintado pelo amigo Cândido Portinari

Terminar de ler "Angústia", de Graciliano Ramos, no meio da Copa é mais ou menos como autoaplicar-se a rasteira que ele, em 1921, de maneira irônica, sugeriu ser adotada como esporte nacional no lugar do então iniciante futebol — este não passaria de um "entusiasmo de fogo de palha".

O jogo de Graciliano é pesado, disputado no campo enlameado e esburacado do adversário, e apitado por um juiz que sequer finge ter algum tipo de imparcialidade. Não há otimismo e pachequismo capazes de resistir à narração da tragédia particular de Luís da Silva, personagem-narrador que renova impasses de Paulo Honório, de "S. Bernardo", e antecipa a opressão que Fabiano, de "Vidas secas", identificava no soldado amarelo. No limite, incorpora o próprio Graciliano que, em "Memórias do cárcere", narra o absurdo de sua prisão.

Em "Angústia", lançado em 1936, quando o autor estava preso, não há espaço aparente para qualquer tipo de esperança fácil, de virada milagrosa de jogo. É como se Luís mirasse aquele que identifica como antagonista — o rico e sedutor Julião Tavares — da mesma forma que integrantes da seleção brasileira olhassem, no intervalo do jogo de 2014 contra a Alemanha, para os adversários que lhes haviam aplicado um humilhante e irrecorrível cinco a zero. Pior, um segundo tempo ainda seria jogado, o que aumentaria ainda mais a dor coletiva.

Mas, como em outros livros do alagoano de Quebrangulo, o que importa é menos a tragédia anunciada do destino e, sim, o processo que leva personagens ensandecidos ao seu encontro. As descrevê-los, Graciliano ressalta seus limites, suas incapacidades. Expõe uma luta que remete ao próprio desafio de sobreviver em um mundo quase sempre hostil.

Os outros — sempre eles — são mais endinheirados, inteligentes, elegantes, poderosos e fortes, oprimem só pelo fato de existirem. Um domínio que, tão intenso, é capaz de gerar uma forma ainda mais grave de violência, como a de Paulo Honório em relação à mulher, Madalena. Ela seria encarada como ameaça por representar uma alternativa à brutalidade.

Não há espaço para amor e lirismo no mundo delirante de Luís da Silva, que trata de reforçar as dificuldades que a vida lhe impõe, é como se houvesse soldados amarelos por todos os lados: vê-se pressionado por sua casa ("inconveniente, cheia de barulhos, parece mal-assombrada"), pela mulher por quem se apaixona, pelo trabalho, pelos amigos. Ele não tem dinheiro, não tem jeito, não tem paciência; na rua, anda com a cabeça baixa, até para não encarar seus credores. Não suporta nem mesmo o que escreve: "Nunca estudei, sou um ignorante, e julgo que os meus escritos não prestam".

Ao apontar para derrotas implacáveis que se avizinham, o autor injeta humanidade nos Silva cujas estrelas não brilham, que ouvem que governo é governo, que se veem incapazes de adquirir um enxoval básico para o casamento, que são espancados, que se sentem incapazes de compreender o que não se manifesta pela violência.

Ao descrever a crueza, Graciliano abre um improvável espaço para a esperança, para a educação pela pedra; exalta a flor capaz de furar o asfalto, o tédio, o nojo e o ódio e o direito de, como a cadela Baleia, sonhar com um céu de preás, gordos e enormes.