Tiros, oração e tragédia

A eventual falsidade do PM não descaracteriza o drama em que estamos todos metidos, o processo de banalização da morte tão incentivado por muitos setores da sociedade.

Por Fernando Molica

Eduardo Hyppolito Rodrigues levou seis tiros de policial

As imagens que mostram o cabo da PM paulista Cauan Alencar Bastos rezando o "Pai-Nosso" para pedir a Deus que evitasse a morte de um homem em quem ele acabara de disparar seis tiros ilustram a tragédia de um país que transformou a violência em rotina. O alvo, o eletricista Igor Eduardo Hyppolito Rodrigues, de 45 anos, que tomava remédios para controlar a esquizofrenia, morreu.

Não se pode descartar a possibilidade de o policial ter simulado a própria comoção para, assim, tentar amenizar sua responsabilidade — ele sabia que tudo estava sendo gravado por uma câmera corporal. Pouco antes, ele dissera ao companheiro de ronda que iria matar o homem que, supostamente, havia ameaçado com um facão um motociclista com quem tivera uma briga de trânsito: "Peraí que vou matar ele, eu vou dar tiro", disse Bastos, em 29 de abril, pouco antes de executar o que planejara.

Mas a eventual falsidade do PM não descaracteriza o drama nosso de cada dia, o processo de banalização da morte tão incentivado por muitos setores da sociedade. O motociclista não havia sido ferido, mas os policiais tinham, claro, a obrigação de tentar prender o sujeito autor da ameaça.

Mas só em uma sociedade ensandecida é possível que um homem armado pelo Estado seja capaz de disparar seis tiros contra um suspeito que sequer portava arma de fogo — o fuzilamento ocorreu antes de qualquer tentativa de prisão.

Ao anunciar para o colega que iria cometer o homicídio, Bastos fez o que muita gente espera dele. Pessoas que veem na polícia um grupo de assassinos, não uma corporação destinada a garantir a segurança de todos nós.

Na PM paulista desde 2019, o cabo só fez o que fez por contar também com a impunidade, quiçá com uma promoção. Em 2015, o então tenente da mesma PM, Guilherme Derrite, afirmou ser vergonhoso um policial não ter, em cinco anos, participado de, pelo menos, três mortes. Em 2018, ele seria eleito deputado federal com 119.034 votos; quatro anos depois, foi o preferido por 239.772 eleitores. Virou secretário de Segurança e, com o mote do combate aos bandidos, é candidato ao Senado.

A possibilidade de o PM ter sido sincero em sua prece é indicada por outras cenas do mesmo vídeo divulgado pela PM. Nele, Bastos se dirige ao ferido, pede para que ele não morra ("Por favor, respira, irmão"), avisa da chegada da ambulância.

Em mensagem de áudio para sua companheira, ele afirma que acabara "de disparar em um maluco aqui", que a vítima estava morrendo e que iria tentar salvar a sua vida. Logo depois, sozinho, reza o "Pai-Nosso". Depois, na delegacia, apresentaria uma versão que se revelaria mentirosa, alegou que ele e o outro PM haviam sido atacados por Rodrigues.

Para a Justiça, pouco importa o eventual arrependimento do cabo Cauan Alencar Bastos, ele — que matou um homem de forma covarde — que se entenda com Deus. Mas o vídeo que registra seu comportamento depois do crime deveria servir como um ato de contrição para ele e para uma sociedade que aposta na crueldade. Valeria repetir e ampliar o verso final da oração mais popular entre os cristãos: livrai-nos do mal, inclusive daquele praticado e estimulado por tanta gente. Amém.