O salto sem cordas da direita

Diferentemente da jovem vítima dos irresponsáveis que a jogaram do alto de um viaduto, políticos de vários matizes dispensaram cordas ou quaisquer equipamentos de segurança quando pularam de cabeça no mito bolsonarista.

Por Fernando Molica

Flávio Bolsonaro vê vantagem de Lula aumentar

As últimas pesquisas divulgadas, em particular a MDA/CNT, indicam que a direita e a centro-direita brasileiras foram gravemente feridas pela adicção a Jair Bolsonaro. Ao pegarem carona acrítica com o ex-presidente, esses setores se deixaram levar pelo mais fácil, mergulharam no abismo certos de que cairiam num macio colchão de votos.

Diferentemente da jovem vítima dos irresponsáveis que a jogaram do alto de um viaduto, políticos de vários matizes — e até aqueles que não se preocupam com isso — dispensaram cordas ou quaisquer equipamentos de segurança quando pularam de cabeça no mito bolsonarista.

Mostraram-se fascinados por um sistema de conquista de votos que dispensava elaborações minimamente sofisticadas ou infindáveis estudos relacionados à economia e à administração pública, ignorava preceitos científicos e acadêmicos, desprezava técnicos que elaboram estratégicas sofisticadas para sua equipe: era baseado na lógica do chutão, do bola pro mato em jogo de campeonato.

O bolsonarismo acabou com o constrangimento sentido por políticos incapazes de formular alguma proposta; para ganhar eleição e ficar bem no story bastava gritar chavões e xingamentos, produzir cenas constrangedoras no plenário, alimentar o ódio nas redes. Criou uma espécie de atalho, como se fosse capaz de transformar em doutor em física nuclear alguém incapaz de somar dois mais dois.

Não se pode acusar Bolsonaro de ter escondido o jogo ou preparado surpresas. Desde o início de sua carreira política que ele joga aberto, nunca disfarçou seus pensamentos autoritários, sua defesa da tortura, sua aversão à democracia, suas posições machistas e preconceituosas.

Na Presidência, não negou o candidato, fez ou tentou fazer o que prometera em relação ao meio ambiente, indígenas, direitos individuais e coletivos — tentou até mesmo aplicar o golpe que, anos antes, dissera que daria caso chegasse à Presidência. Na pandemia, dobrou a aposta no lado obscurantista.

É compreensível que setores da população sejam seduzidos por uma linguagem simplista, de viés religioso, de contestação ao sistema de plantão, às instituições que costumam ignorar quem mais delas precisa. Havia também bons motivos para que o PT fosse rejeitado.

Mas é imperdoável que políticos com anos e anos de mandato, tenham se deixado se levar. O oportunismo suplantou todas as precauções mínimas, relacionadas, no limite, à própria sobrevivência da democracia.

Não dá para esperar nada de parlamentares dedicados à mineração de recursos públicos — estes estarão sempre ao lado do cofre —, mas é surpreendente que quadros experientes tenham atirado contra a própria biografia ao renovarem a aposta no projeto autoritário e personalista incorporado por Bolsonaro.

Os sucessivos tropeços de Flávio Bolsonaro e a inexpressividade dos outros candidatos da direita mostram que a adesão irrestrita à uma aventura cobra seu preço. Eleições costumam reservar surpresas, mas a de 2026 aponta menos para uma vitória da esquerda e da centro-esquerda e mais para a derrocada dos que apostaram no abismo, que buscaram cordas apenas para se enforcarem.