Com igreja e sem impostos

Prevista pela Constituição, a não cobrança de impostos a entidades religiosas e templos de qualquer culto representa um subsídio pago por todos nós, fiéis ou não.

Por Fernando Molica

Deputado Marcelo Crivella, autor da PEC das Igrejas, que aumenta isenção de entidades religiosas

Cansado de pagar impostos? Seus problemas acabaram: funde uma igreja e repasse a conta para os sem-igrejas, que passarão a cobrir o rombo que você deixará nas contas públicas.

Hoje, templos religiosos — de qualquer crença — são isentos de IPTU, ITBI, IPVA, ISS, PIS, Cofins e, em alguns casos, do imposto de renda. Caso o Senado aprove a proposta de emenda constitucional que já recebeu o sim da Câmara, a isenção vai ficar ainda maior: você terá abatimento nos impostos embutidos em produtos e serviços supostamente necessários à prática religiosa.

De acordo a PEC, apresentada pelo deputado Marcelo Crivella (Republicanos-RJ), você ficará livre de tributos relacionados à formação de patrimônio, geração de renda e prestação de serviços para sua igreja. Ou seja: nada de impostos sobre o carro — ou helicóptero ou jatinho — que você comprar ou sobre o material adquirido para construir seu imóvel (você não vai abrir mão de morar no seu templo, né?). A ceia também ficará mais barata: nada de tributos sobre pratos, talheres, panelas, gás e gêneros alimentícios.

O ministro da Fazenda, Dario Durigan, colocou a discussão no ponto essencial. Caso seja aprovada, a PEC das Igrejas vai gerar aumento de um ponto percentual na já alta alíquota prevista para o Imposto Sobre Valor Agregado, criado pela reforma tributária. O percentual subiria de 27,5% para 28,5%.

Não tem milagre: o imposto que não é pago por João será pago por Francisco. A isenção de imposto de renda para quem ganha até R$ 5 mil só foi possível graças a uma taxação adicional dos mais ricos. No Brasil, governar com frequência se confunde com a prática de distribuir incentivos fiscais.

Setores mais organizados e poderosos tradicionalmente conseguem leis que diminuem seus tributos. Segundo a Associação Nacional dos Auditores Fiscais da Receita Federal, só este ano deixarão de pagos cerca de R$ 900 bilhões em impostos. Para a entidade, R$ 620 bilhões são privilégios concedidos a diferentes grupos — beneficiários do Simples Nacional, empresas da Zona Franca de Manaus, gigantes do agronegócio.

Diferentemente de países mais justos, que cobram mais impostos de quem têm mais dinheiro, a tributação no Brasil é muito focada no consumo, algo que pune principalmente os mais pobres: o imposto que incide sobre uma camisa é igual para todo mundo.

Prevista pela Constituição, a não cobrança de impostos a entidades religiosas e templos de qualquer culto representa um subsídio pago por todos nós, fiéis ou não. Até o contribuinte ateu é obrigado a sustentar a fé alheia.

Na Alemanha é contrário: católicos e evangélicos pagam um imposto adicional para bancar suas igrejas. Seria complicado e politicamente inviável fazer isso no Brasil, mas é absurdo distribuir sobre toda a população a responsabilidade de sustentar a fé alheia.

A nova isenção ainda contribuiria para outra forma de concentração de renda: quanto mais rica uma religião ou denominação, maior será seu benefício. A liberdade religiosa é fundamental, mas a fé não pode remover grana dos bolsos alheios.