Entender não é perdoar, doutora
Por mais óbvio que seja reconhecer as injustiças e as desigualdades brasileiras e o papel que exercem no estímulo à revolta e à criminalidade, não seria razoável absolver todos os que aleguem dificuldades financeiras para justificar roubos e assaltos.
Ao citar os "moldes patriarcais" da sociedade para justificar seu perdão a Monique Medeiros, mãe do menino Henry Borel, a juíza Elizabeth Machado Louro confundiu compreensão com perdão.
É possível entender o que leva alguém a cometer um crime ou algum outro tipo de ofensa grave. Por mais desatinados que sejam os atos, todos pertencem ao imprevisível e ilimitado repertório humano, há sempre uma lógica por trás de gestos desprezíveis, cruéis, genocidas, bárbaros, inconcebíveis.
Buscar entender absurdos é talvez a mais relevante possibilidade da literatura. Diferenças culturais relacionadas à religião, à etnia, ao gênero, à geografia, à história — pessoal ou coletiva — ajudam a compreender crimes que marcam a história da humanidade.
Foi e é assim que o povo A odeia e busca eliminar o B — e vice-versa —, que um homem ou mulher que se julga traído decida eliminar quem lhe causou tamanha dor. É possível enteder as razões de Raskolnikóv, de "Crime e castigo", romance de Dostoiévski. O conto "O cobrador", de Rubem Fonseca, revela o ódio que move um assassino que busca obter o que lhe foi negado. Mas seria impensável não punir esses dois protagonistas.
Os melhores livros, filmes e peças são os que indicam a razão do outro; nos ajudam a ver diferenças, nuances, alternativas fora do senso comum — até porque o que é comum a um grupo com frequência é estranho a outra comunidade. Aprender a ver o mundo também com olhos que não são os nossos representa um exercício de humanidade, de construção de entendimentos.
Essa compreensão até justifica a não punição de um crime. Outro dia, o 2º Tribunal do Júri de Belo Horizonte (MG) absolveu uma mulher que mutilara e matara o homem que estuprara sua filha de 11 anos. Mas este caso é uma exceção. Por mais óbvio que seja reconhecer as injustiças e as desigualdades brasileiras e o papel que exercem no estímulo à revolta e à criminalidade, não seria razoável absolver todos os que alegam dificuldades financeiras para justificar roubos e assaltos.
No caso de Monique, a magistrada acertou ao enumerar fatos relacionados ao machismo e ao criticar a perfeição cobrada das mães. Mas bateu errado o martelo ao dizer que "fosse o pai, e não a mãe, na mesma situação, nem sequer teria sido ele processado" — trata-se de uma especulação incompatível com um tribunal.
Ao condenar a pressão exercida contra a ré, a juíza frisou que ela sofrera "perseguição implacável" e "franco massacre". É inegável que, na era das redes sociais, o justiçamento virtual se tornou incontrolável, capaz de produzir tragédias — uma regulamentação que puna a irresponsabilidade é mais do que necessária.
Mas, no caso julgado, a vítima de perseguição implacável e de franco massacre foi Henry, de quatro anos. Um menino alvo de frequentes agressões por parte do padrasto, o então vereador Jairo de Souza Santos Junior e que não contou com a proteção, por imperfeita que fosse, da própria mãe. Suas limitações podem ser compreendidas, mas não são perdoáveis.