O risco de Flávio virar David Luiz

O pré-candidato do PL exerce seu papel ao tentar convencer o juiz-eleitor; política, afinal, é também uma grande guerra de versões. O problema é que os fatos conspiram contra ele.

Por Fernando Molica

David Luiz, um dos zagueiros da seleção brasileira na derrota de 7 a 1 para a Alemanha.

Às vésperas de uma nova Copa, Flávio Bolsonaro poderia ver uns jogos da seleção brasileira em 2014 e prestar atenção em algumas atuações do zagueiro David Luiz — verificaria o risco que representa largar a defesa e partir de forma desordenada para o ataque.

A revelação das relações cinematográficas com Daniel Vorcaro e a consequente queda nas pesquisas obrigaram o pré-candidato do PL à Presidência a deixar de jogar parado. Até então, ele crescia sem muito esforço: graças aos votos cativos do pai, ele se isolara na dianteira entre os candidatos de direita, o que lhe gerou mais e mais adesões.

Ainda que desolado com a não escalação de Tarcísio de Freitas, o empresariado tratou de migrar para as bandas daquele que se apresentava como "o Bolsonaro que toma vacina". Acreditou na possibilidade de existência de uma versão moderada de um movimento político que depende do radicalismo para viver.

Deu no que deu. O senador fluminense foi flagrado pedindo dinheiro para o então dono do Banco Master, ensaiou desculpas, prometeu (e não cumpriu) apresentar as contas da produção, admitiu que visitara Vorcaro quando uma tornozeleira já resplandecia em uma de suas canelas.

Diante dos gols tomados, Flávio fez como David Luiz. Partiu para o ataque, para uma viagem aos Estados Unidos tão improvisada quanto as investidas do zagueiro no Mineirão, no fatídico jogo contra a Alemanha. O suposto gol marcado pela classificação do PCC e do CV como organizações terroristas ainda estava sendo analisado pelo VAR quando Donald Trump começou a lançar bolas nas costas do primogênito de Jair Bolsonaro.

Supreendido com a vantagem do adversário e com o cartão amarelo dado pelos EUA ao Pix, Flávio Bolsonaro passou a tentar inverter o jogo e acusar o outro time — no caso, o presidente Lula (PT) — de ser o principal responsável pela lambança.

Ele exerce seu papel ao tentar convencer o juiz-eleitor; política é também uma grande guerra de versões. O problema é que os fatos conspiram contra ele. Ano passado, o clã Bolsonaro, especialmente o então deputado Eduardo, alardeou que buscava nos EUA a imposição de medidas contra o Brasil. O tarifaço chegou a ser comemorado até por aliados como o governador de São Paulo, Tarcísio de Freitas, que meteu na cabeça o boné trumpista.

Agora, as novas ameaças da Casa Branca foram anunciadas no rastro da viagem de Flávio Bolsonaro em que se encontrou com Donald Trump e com o secretário de Estado, Marco Rubio. Na semana passada, o governo brasileiro afirmou, dias antes do ataque ao Pix, que ações contra grupos classificados de terroristas poderiam afetar o sistema financeiro nacional, e até mesmo o nosso mecanismo de pagamentos.

Assim como jogadores de futebol, políticos têm que adaptar seu jogo às condições de cada partida, mas é complicado quando mudanças afetam de maneira radical o esquema proposto. O Flávio moderado durou pouco, deu lugar a um personagem mais compatível com o bolsonarismo. O problema é que o ataque desesperado deixa a defesa ainda mais desguarnecida. E, a essa altura da disputa, ele já deve ter notado que não dá pra combinar nada com o ruço Trump.