Ferir e ser ferido com o Pix
O apelido de "Taxad", aplicado ao então ministro Fernando Haddad ganhou força. Agora, governistas passaram a chamar Flávio Bolsonaro de "Tariflávio".
Graças a Donald Trump, o governo ganhou a oportunidade de dar o troco ao tombo sofrido em janeiro de 2025, quando anunciou um controle maior sobre operações financeiras, feitas, inclusive, via Pix. A oposição deitou e rolou, falou em taxação de operações feitas pelo mecanismo queridinho dos brasileiros; a reprovação de Lula (PT) subiu de 47,8% em dezembro para 53%, segundo pesquisas Atlas/Intel.
O apelido de "Taxad", aplicado ao então ministro da Fazenda, Fernando Haddad, ganhou força. Agora, por obra do governo norte-americano, que endureceu o jogo contra o Pix e ameaça exportações brasileiras, governistas passaram a chamar Flávio Bolsonaro, pré-candidato presidencial do PL, de "Tariflávio".
Ano passado, o alinhamento do clã Bolsonaro e de aliados como Tarcísio de Freitas a favor de retaliações de Trump ao Brasil já representara um fuzilamento dos próprios pés. Agora, a situação é ainda mais delicada, o senador fluminense acabou de se reunir com o governo dos Estados Unidos.
Flávio enfatizou o que lhe interessava, o lobby para que os EUA passassem a considerar como terroristas internacionais o PCC e o CV. Não levou em conta, porém, o risco que representava abrir espaço para qualquer atuação no Brasil de um país que adora intervir no quintal alheio.
A possibilidade de a Casa Branca de taxar produtos brasileiros e de detonar o Pix dá ao governo brasileiro a chance de ressaltar a nota da semana passada, em falou em "traidores", "falsos patriotas", em ameaça ao PIX — ainda classificou de deplorável a atuação de integrantes da família Bolsonaro.
Para boa parte da população, a criação de sobretaxas soa distante, impalpável, briga de interesses comerciais, de cachorro grande. Por mais que obstáculos a produtos brasileiros repercutam na renda e no emprego de brasileiros, essas consequências tendem, na grande maioria dos casos, a ocorrerem de forma indireta e difusa.
Já tentar impor restrições ao Pix é quase como xingar a mãe dos 170 milhões de brasileiros, os 80% da população que, segundo dados do Banco Central, utilizam esse meio de pagamento simples, direto, isento de taxas. Um mecanismo que estimulou a entrada de muita gente no sistema bancário e que permite um maior controle do orçamento doméstico.
Flávio Bolsonaro pareceu ter acreditado que seria possível fazer com que os EUA deixassem de levar em conta seus interesses, os de suas empresas — no caso, as grandes operadoras de cartões de crédito, que cobram até 3,5% de taxas para compras à vista. Ontem, com sua carta ao secretário de Estado, Marco Rubio, renovou a aposta. Talvez seja mais fácil arriscar no jogo do tigrinho.
O caso do Pix chega a ser caricatural, de tão exemplar sobre o que a esquerda convencionou chamar de imperialismo norte-americano: atualiza desenhos do Tio Sam, resgata a política do Big Stick (o grande porrete). Faz lembrar o ódio despertado por Leonel Brizola quando, governador do Rio Grande do Sul, encampou as subsidiárias da ITT (de telefonia) e da Bond & Share (de energia elétrica). O general Ernesto Geisel, presidente na ditadura, foi muito pressionado pelos EUA ao desenvolver um programa autônomo de energia nuclear. Os exemplos mudam, a lógica da Casa Branca permanece.