Fim do 6 x 1: a marca de Lula 3

O aumento do tempo de lazer dos trabalhadores é uma pauta simples, de fácil compreensão, que gera benefícios imediatos e que marca diferenças em relação a políticos de direita.

Por Fernando Molica

Deputados comemoram a aprovação da PEC que acaba com a escala seis por um

A proposta de fim da escala de seis dias de trabalho por um de folga deu ao governo um bilhete premiado como há muito tempo não chegava em mãos petistas. Tem tudo para se transformar na marca original tão perseguida neste terceiro mandato do presidente Lula.

O aumento do tempo de lazer dos trabalhadores é uma pauta de fácil compreensão, que gera benefícios imediatos e que marca diferenças em relação à direita. Parafraseando o grande locutor Januário de Oliveira (1940-2021), taí o que o PT queria.

Pesquisas e analistas haviam detectado um desgaste da fórmula petistas; iniciativas retomadas pelo atual governo eram vistas como conquistas da sociedade incorporadas ao cotidiano, deixaram de ter o carimbo petista. Isso incluía o Bolsa Família, o Farmácia Popular e o Minha Casa, Minha Vida.

A ampliação do acesso ao ensino superior passou a enfrentar um outro problema, a dificuldade que os novos diplomados passaram a ter para se inserirem no mercado de trabalho. Muitos jovens pobres preferiam, à ralação nas faculdades, o atalho do aluguel de sua mão de obra para aplicativos — quem é pobre tem pressa, diria Betinho (1935-1997).

Programas como o pacote para a área de segurança pública são complicados, de difícil execução; seus eventuais frutos serão colhidos lá na frente. O fim da cobrança de imposto de renda para quem ganha até cinco salários mínimos foi importante, mas não tão decisivo em um momento em que tantos não recebem contracheques, têm rendimentos de fontes dispersas, nem sempre declarados. O fim da taxa das blusinhas foi, principalmente, o reconhecimento de um tiro no pé.

Já a substituição da escala seis por um pela de cinco por dois tem cara de novidade, de algo até inesperado. Apesar de possíveis consequências negativas, ressaltadas por entidades empresariais, a obrigatoriedade de uma folga extra dá um alento a milhões de pessoas.

Permite ao PT a chance de se reconciliar com o universo do qual andava afastado por suas dificuldades de entender o novo mundo do trabalho. Mais: dá ao partido a recuperação do discurso do nós contra eles de uma maneira objetiva e concreta, de evidenciar uma clara divisão de campos. Dá novo matiz à defesa da família — não de uma maneira abstrata, baseada em princípios morais e religiosos, mas com base em benefício real.

A mudança, caso efetivada, dará um fôlego à CLT, tão desprezada nos últimos anos até mesmo na base da pirâmide social. A possibilidade de ter dois dias de folga equilibra o jogo, é capaz de gerar algumas dúvidas nas cabeças dos que têm preferido trocar a segurança da carteira assinada pela aventura sobre duas rodas.

A redução nas horas trabalhadas deverá ser complicada, é impossível negar a possibilidade de repasse, para o consumidor, de custos adicionais para empresas. Trabalhadores não sofrerão redução salarial, mas nada impede que sejam demitidos e substituídos por outros que ganhem menos.

Mas não há jogo de ganha-ganha na política, palco de inevitáveis e necessários embates entre interesses diversos e até opostos. O jogo sempre pode virar, mas, até aqui, o fim da seis por um aponta para uma vitória importante do governo.

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