O bloqueio da terceira via
Empresários preferiram acreditar que Flávio era mesmo o Bolsonaro que tomava vacina, que seria mais maleável e moderno, que seria injusto puni-lo pelos pecados do pai.
A terceira via, uma alternativa à candidatura de Flávio Bolsonaro (PL), tem sido travada por uma barreira que setores empresariais e financeiros ajudaram a construir quando abraçaram o bolsonarismo. O veto do ex-presidente Jair Bolsonaro à candidatura presidencial do governador de São Paulo, Tarcísio de Freitas (Republicanos), preferido por dez entre dez expoentes da Faria Lima, evidenciou ainda mais o viés do clã, que busca se constituir em uma espécie de caminho único para os setores à direita do espectro político e busca formar uma dinastia.
Essas lideranças empresariais podem argumentar que não apostaram em Bolsonaro em 2018, foram surpreendidas pela força do ex-capitão quando jogavam suas fichas em alternativa mais palatável, representada pelo então tucano e hoje socialista Geraldo Alckmin.
É compreensível que comemorassem o fim do ciclo marcado por quatro vitórias consecutivas do PT e o início de uma experiência liberal que seria comandada por Paulo Guedes. Vá lá que acreditassem na conversão de Bolsonaro às regras do jogo democrático, talvez a defesa de ditadores e torturadores e a condenação de direitos humanos básicos não passassem de jogo de cena, né?
Mas Bolsonaro, condenado pelo Supremo Tribunal Federal, não pode ser acusado de ter enganado seus eleitores. Talvez tenha sido, entre todos os presidentes, o que mais demonstrou fidelidade às propostas de quando era candidato — foi fiel aos absurdos despejados na campanha.
No Planalto, procurou executar o projeto autoritário que alardeou em toda a sua carreira política; diante da pandemia, provou sua adesão ao negacionismo; ameaçado de perder o poder, renovou sua fidelidade a saídas golpistas. Na economia, substituiu o liberalismo de palanque pela prática de concessão de benesses tão condenadas quando praticada por petistas.
Sua atuação na eleição municipal paulistana demonstrou, mais uma vez, sua desconfiança em relação aos que não professam de joelhos sua cartilha, esnobou até onde foi possível a candidatura de Ricardo Nunes (MDB), mesmo depois de ter imposto um fiel escudeiro no lugar de vice.
Agora, diante do coro pró-Tarcísio, escolheu um filho, não quis correr o risco de perder a hegemonia no campo da direita — como Dom João VI, quis manter tudo em família; independência conservadora seria sua morte política.
Os que hoje buscam a terceira via sabiam do risco representado por Bolsonaro e por seu filho, que trazia no currículo suspeitas relacionadas à construção indevida de patrimônio imobiliário, obtenção de lucros mágicos de uma loja de chocolates e de peculato, a rachadinha.
Mesmo assim, os que sofrem de engasgo crônico com a estrela vermelha do PT resolveram apostar. Preferiram crer que Flávio era mesmo o Bolsonaro que tomava vacina, que seria mais maleável e moderno.
As conversas com Daniel Vorcaro, uma relação antes negada pelo pré-candidato, revelaram o que empresários queriam não ver quando construíam o muro que interditaria seus caminhos — quem pede carona não define o trajeto.