A direita e a dinastia Bolsonaro
Os problemas de Flávio Bolsonaro viabilizariam um candidato não submisso ao ex-presidente
A tempestade deflagrada pela revelação das conversas entre Flávio Bolsonaro e Daniel Vorcaro remete ao chavão que associa a palavra crise a uma oportunidade. Caso tenha que desistir do primogênito de Jair Bolsonaro, a direita perderia um candidato que se mostrava viável, mas ganharia a chance de se livrar da camisa de força imposta pelo clã.
A eleição de 2018 fez com que Bolsonaro-pai se transformasse na grande liderança de uma direita que, até então, tinha vergonha de dizer o próprio nome. A partir de 1994, os principais candidatos à Presidência se apresentavam vestidos com diferentes modelos derivados da social-democracia: em 2002, seria até difícil diferenciar os programas de governo de Lula (PT), José Serra (PSDB), Anthony Garotinho (PSB) e Ciro Gomes (PPS, sucessor do PCB).
Bolsonaro encarnou sentimentos conservadores meio dispersos, beneficiou-se do cataclisma da Lava Jato, da prisão de Lula, de um certo cansaço geral da Nação. Foi eleito e, por pouco, não conseguiu se manter no Planalto.
Mesmo derrotado em 2022, manteve uma incontestável liderança, a ponto de arrastar para a extrema direita políticos mais afinados com propostas bem menos radicais. Nem mesmo suas estripulias golpistas e sua consequente condenação foram suficientes para golpear sua popularidade de maneira significativa.
O maior problema de Bolsonaro é ele próprio, sua teimosia, sua desconfiança em relação ao universo político, seu temor de ser traído — só confia em si e nos filhos, como demonstrou ao impor Flávio como candidato de seu partido.
Com medo de perder o protagonismo do universo conservador, tratou de inviabilizar a escolha de Tarcísio de Freitas (Republicanos), governador de São Paulo, para a disputa da Presidência. Bolsonaro deixa evidente a intenção de criar uma espécie de dinastia: de seus cinco filhos, só a caçula — ainda — não exerce atividade político-partidária.
Para a direita mais ampla, que inclui o sempre maleável Centrão, Bolsonaro entra naquela história de meu bem, meu mal. Ele é ótimo para disputar eleições e ajudar a eleger deputados; péssimo na hora de abrir mão do protagonismo (ainda que, durante seu mandato, tenha terceirizado com prazer a tarefa de administrar o país).
Ao aceitar a candidatura de Flávio, a direita mostrou não querer brigar com Bolsonaro e com seus milhões de súditos. Mas a eventual inviabilização do sonho presidencial do senador fluminense abre a tal janela de oportunidades — ele não ria defenestrado por um complô de aliados, mas pelos próprios tropeços.
O caráter plebiscitário do pleito colabora para uma eventual substituição. As pesquisas que simulam disputas em um segundo turno mostram a força de candidatos contra Lula. A troca de Flávio por um político mais tradicional daria à direita uma oportunidade imensa: a de andar com as pernas impulsionada pelo forte vento bolsonarista — isso, sem passar a ideia de traição ao líder.
Há também a opção Michelle, que carrega o nome da família. O problema é que nem Jair gosta da ideia. Fora que ela, no poder, seria ainda mais imprevisível que o marido, e sonho de parte da direita de surfar num bolsonarismo sem Bolsonaro continuaria distante.