Bibiana, Belonísia e Samuel na pista

"Torto arado" e "A cabeça do santo" são dois ótimos e, infelizmente, raros exemplos de produção brasileira de qualidade que rompem o círculo dos iniciados e conquistam público bem mais amplo.

Por Fernando Molica

Itamar Vieira Jr (de azul) com os carnavalescos Gabriel Haddad e Leonardo Bora e o pesquisador Vinicius Natal. Vila Isabel levará temática de 'Torto Arado' para seu desfile no carnaval 2027

Ao escolherem os romances "Torto arado", de Itamar Vieira Junior, e "A cabeça do santo", de Socorro Acioli, para seus enredos em 2027, a Vila Isabel e a Tijuca reforçam um diálogo com a literatura brasileira contemporânea como fizeram Portela e Grande Rio em 2024 (que, respectivamente, buscaram inspiração em "Um defeito de cor" de Ana Maria Gonçalves, e "Meu destino é ser onça", de Alberto Mussa).

Não é de hoje que escolas de samba adaptam obras de ficção — a Portela, em 1966, desfilou com "Memórias de um sargento de milícias", do livro de Manuel Antônio de Almeida, e, em 1975, com "Macunaíma", de Mário de Andrade. A Imperatriz, em 1972, levou para a Avenida sua leitura do poema "Martim Cererê", de Cassiano Ricardo.

Mas ao apresentarem enredos baseados em obras de autores vivos, que continuam a escrever e lançar livros, as escolas estabelecem um diálogo ainda mais interessante, provocam o espectador, estimulam leituras e geram uma importante tensão, uma conversa entre duas formas de expressão artística bem diversas a partir das suas origens: o trabalho solitário do escritor e a elaboração coletiva de um desfile.

Adaptações de livros de ficção para o cinema e TV são muito comuns, mas, de um modo geral, tendem a seguir a estrutura concebida pelos romancistas. Já as apresentações de escolas de samba têm outra lógica narrativa, muito mais ligada ao universo das artes plásticas e da música. Como frisava Joãosinho Trinta, são uma forma de ópera, gênero que, até a chegada do cinema, era o que mais reunia diferentes formas de expressão artística.

Os desfiles, porém, são ainda mais abstratos e abertos que as óperas, estas, presas a uma partitura e a um libreto. Apenas jurados e alguns iniciados radicais — a bolha da bolha do Carnaval — assistem às escolas com o roteiro (o "Abre-Alas") em mãos. A própria lógica do desfile impede uma tradução mais literal do texto do livro que lhe serviu de base; o que se vê no Sambódromo é uma interpretação livre do que foi escrito, uma grandiosa obra de arte que, como algumas pouquíssimas espécies vegetais, só floresce uma vez, um desfile é único e sempre particular — literalmente, ninguém pode vê-lo da mesma forma.

A adoção desses livros também serve de um baita estímulo para a literatura brasileira contemporânea. "Torto arado" e "A cabeça do santo" são dois ótimos exemplos de produção atual e de qualidade que conseguiram romper o círculo dos iniciados e conquistaram público bem mais amplo (o livro de Itamar ultrapassou a casa do milhão de exemplares vendidos).

Falar deles é também frisar a importância das outras histórias aqui concebidas e narradas, romances, contos, crônicas e poemas que tratam de nossas vidas, propõem novas formas de encarar nossos perrengues, esperanças, desilusões, amores, esquisitices, indicam as infinitas possibilidades de fé e de convivência com nossas diferenças, ressaltam o idioma que herdamos e reinventamos a cada dia.

Ao levar Bibiana, Belonísia, Samuel, Mariinha e Rosário para o Sambódromo, Vila e Tijuca nos jogam também na pista e nos carros alegóricos, fazem com que sejamos protagonistas; leem e reescrevem histórias que, assim, nunca terminam.